Zé Carneiro
Noutros tempos de rapazes, que não os de agora, aos 9, 10 anos começavamos a largar a roda das saias da mães e das avós e íamos metendo a medo os pés fora da soleira da porta, deixando para trás, por algumas horas, cada vez mais alongadas, o conforto do ninho familiar.
A natureza das coisas e o instinto dos rapazes rapidamente nos impelia a escolher um modelo a seguir, uma espécie de herói, guia e farol omnipresente, lançando luz sobre os segredos da vida que não vêm nos livros da 4ª classe e cujos tiques e façanhas gostaríamos de imitar, na esperança do rápido domínio dos truques e macetes da existência, mas que ao mesmo tempo é terreno e te trata como um igual e até, calhando, paga o primeiro sumol fora do círculo familiar.
O Zé Carneiro foi esse meu primeiro herói de carne e osso.
Mais velho do que eu uns 6 ou 7 anos, como convinha, era diferente, arrojado, meio doido; andava sempre ou a sair de uma alhada ou a meter-se noutra. Conduzia o carro às escondidas do sr. Carneiro, sem carta de condução, fazia peões como ninguém e montava auto-rádios ou o que calhasse aparecer.
E depois contava, sempre na primeira pessoa, histórias que atestavam como eram, e porque eram, as mulheres a melhor coisa do mundo, ciência que ele dominava porque trabalhava no Porto, o que equivalia a uma licenciatura nesse domínio. E, sacana, engatava sempre as melhores.
Mantemos desde esses tempos brumosos uma cumplicidade que não sendo daquelas que se manifesta com exuberância, é sensata o suficiente para se bastar com um piscar de olho que invoca memórias.
Dizem-me que o Zé Carneiro morreu.
Como é do conhecimento geral, e vem nos livros, os heróis não morrem. Muito menos os heróis do nosso quotidiano.

