{"id":435,"date":"2009-07-27T01:41:36","date_gmt":"2009-07-27T00:41:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aloisio.pranlaw.com\/?p=435"},"modified":"2014-04-13T15:16:23","modified_gmt":"2014-04-13T14:16:23","slug":"destas-touradas-eu-gosto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/blog\/2009\/07\/27\/destas-touradas-eu-gosto\/","title":{"rendered":"Destas touradas eu gosto"},"content":{"rendered":"<div class=\"symple-column symple-one-half symple-column-first  \">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>[dropcap]\u201cU[\/dropcap]ma grande tourada na Pra\u00e7a de S\u00e3o Jo\u00e3o, com 9-Toiros Puros-9, apartados a capricho das melhores cria\u00e7\u00f5es da ilha, 5 cavaleiros para as cortesias, 2 de lide, a quadrilha espanhola do c\u00e9lebre Moyanito, que lidou toiros em pontas nas mais categorizadas pra\u00e7as da Pen\u00ednsula, alguns amadores de p\u00e9 e os bregas do costume, neto a rigor, D. Tancredo e casa da guarda por um destemido grupo de forcados. O espada passar\u00e1 de capote e muleta os toiros que julgar convenientes. Est\u00e3o em vigor todas as disposi\u00e7\u00f5es policiais na arena. As portas da pra\u00e7a abrem \u00e0s 3 horas e pode-se assistir \u00e0 embola\u00e7\u00e3o. Previne-se o respeit\u00e1vel p\u00fablico de que n\u00e3o h\u00e1 meios bilhetes. &#8211; Ol\u00e9! Ol\u00e9 Venga la \u2019pada!&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Semelhante programa, apesar do \u00abpode ser alterado por qualquer motivo imprevisto\u00bb, trouxera a ilha em peso \u00e0 cidade. Pelos Port\u00f5es de S\u00e3o Pedro, pela Carreirinha, pela Boa Hora e Vinha Brava desciam das quatro costas da ilha os char-\u00e0-bancs do \u00abmonte\u00bb, carregados de lavradores e de raparigas perfeitas, trens com gente da Praia, as charretttes dos calafonas rangendo nos seus coiros untados e as carripanas com as rodas de p\u00e2ndegos que, do propriet\u00e1rio ao professor e \u00e0 vezes ao padre um pouco envergonhado no seu guarda-p\u00f3 cinzento e na sua boquilha crestada, t\u00eam nas m\u00e3os os destinos dos sindicatos do leite, o imp\u00e9rio das freguesias. Os cavalos e os machos, sacudindo as guiseiras, bebiam nos chafarizes pr\u00f3digos e monumentais da cidade; um fragor de rodas e de cabos de chicote nos raios abalava as cal\u00e7adas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Eh povo\u2026 Olha a frente!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Tire-se da\u00ed minha tia, q\u2019 eu n\u00e3 l\u2019hei-de durar sempre!\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Um fogo me pegue se n\u00e3o amanho hoje u\u00e3 genra pra minha m\u00e3e!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Rua dos Cavalos uma velha sevilhana que Anillo, antigo bandarilheiro aposentado em dono de restaurante La Giralda, trouxera do bairro de Triana para dar sainete \u00e0 cidade, servia macarronete, arroz de pimentos, malacuetos. E as casas de pasto da Rua da Esperan\u00e7a, da Rua de Santo Esp\u00edrito, da Rua das Frigideiras, n\u00e3o tinham m\u00e3os a medir a fritar lingui\u00e7a e morcela que dessem para todo aquele povo.(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s quatro menos cinco, a Recreio dos Artistas rompeu com um Viva La Coru\u00f1a! E logo o clangor dos metais da Fanfarra Oper\u00e1ria P\u00e1tria e Liberdade, que emulava com a Recreio para n\u00e3o esfriar o entusiasmo das bancadas \u00e0 cunha, acordou os ecos das terras da Madre de Deus, recolhida no azul vivo da sua fachada e ermida, dominando a cidade como recorda\u00e7\u00e3o das eras dos capit\u00e3es-mores que ali se criavam e viviam.(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tourada, em benef\u00edcio das casas de caridade da ilha, tinha uma enchente garantida. As bancadas estavam negras de povo; de vez em quando ouvia-se estalar uma t\u00e1bua. As portas dos \u00faltimos camarotes vazios davam entrada \u00e0s fam\u00edlias gradas da terra; alguns, seguros de lugar no espect\u00e1culo, entravam com o ar chique e blas\u00e9 da \u00faltima hora. A brigada dos mo\u00e7os de regador em punho descrevia os \u00faltimos c\u00edrculos de rega na arena amarelada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, com o director de corrida trepado \u00e0 intelig\u00eancia ouviu-se um toque de clarim, e, abertas as portas de par em par, cavaleiros, quadrilhas e forcados abriam na arena o seu leque de penachos e de luces.(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao nono toiro, a anima\u00e7\u00e3o da pra\u00e7a batia o auge. Moyanito, depois de dois quiebros formid\u00e1veis e quase sem prepara\u00e7\u00e3o, dirigiu-se \u00e0 trincheira, atravessou com o capote meia arena, como se em casa, feita a barba, se fosse chegando para a porta, de sobretudo no bra\u00e7o; e, em duas faenas cortadas por um breve marasmo da r\u00eas, desenvolveu um jogo de admirar num simples novilheiro &#8211; ornando-se, centrando-se na capa segura s\u00f3 por uma ponta e caracolada docemente em torno das sapatilhas; fitando o boi subjugado, com um gesto de coleta retr\u00e1ctil, como p\u00e1ssaro que parece fazer pouco do ramo. Duas ver\u00f3nicas perfeitas e um farol estupendo, a p\u00e9s juntos, coroaram a acometida. Parecia que a pra\u00e7a vinha abaixo! (&#8230;)<span style=\"line-height: 1.5em;\"><\/div>\n<p><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Muleta! Muleta! &#8211; \u00a0gritavam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o Moyanito foi buscar o trapo encarnado e, ajeitando-o rodando o bra\u00e7o para que lhe sujeitassem o toiro, tirou dois ou tr\u00eas passes de efeito. Como, por\u00e9m, um come\u00e7o de brisa tendesse a deixar o pano fraldejar e o toiro se furtasse ligeiramente \u00e0 lide, recuando no terreno, Moyanito levantou a espada e, com a biqueira da sapatilha, polvilhou o pano, um pouco molhado, com a terra da arena, solta dos giros da brega. E, assim, precavido, enquanto um en\u00e9rgico \u00abcala a boca, burro\u00bb metia na ordem o parvo que gritava \u00abtem cheiro! A capa tem cheiro\u00bb retomou o t\u00e9rcio da sombra, um pouco na defensiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O toiro quase metido entre a espada e a parede, ainda reagiu bem. Ouvia-se-lhe o bufar baixo e encurralado e o bater da muleta nos cornos. Depois, com o cerco cada vez mais apertado, as sapatilhas de Moyanito n\u00e3o faziam mais ru\u00eddo na arena do que as sand\u00e1lias de um leigo ao longo de um claustro abandonado. A r\u00eas, que em geral arrancava viva e baixa, aspirando a fralda encarnada rente ao p\u00e9 do terreno,\u00a0come\u00e7ou outra vez a levantar a cabe\u00e7a e a furtar-se ao castigo. Moyanito, ent\u00e3o, fazendo intervires bregas, retirou o boi do reparo, aplicou-lhe um valente muletazo, e, mudando de m\u00e3o, rematou com dois estupendos &#8220;naturais&#8221; pela esquerda, que arrancaram igual n\u00famero de ol\u00e9s! \u00e0 assist\u00eancia.\u00a0Ent\u00e3o o espada julgou o animal domado e nobre a ponto de lhe p\u00f4r a m\u00e3o exacta e p\u00e1lida na malha branca da testa. Depois, para consertar a muleta e fingir o sinal de morte, voltou-lhe desdenhosa e pausadamente as costas. A r\u00eas, trai\u00e7oeira, atirou-se como um rel\u00e2mpago sobre o pobre toureiro, enfiando-o pelo c\u00f3s dos cal\u00e7\u00f5es e atirando-o ao ar como um passarinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma exclama\u00e7\u00e3o de terror varou a pra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Furou-o de lado a lado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Est\u00e1 pronto! \u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os pe\u00f5es de brega correram sobre o triste painel do gladiador e da fera; mas j\u00e1 o toiro parecia ter tido tempo para reduzir Moyanito a um trapo coberto de p\u00f3. Enrodilhado e como morto, ainda pudera levar as m\u00e3os \u00e0 nuca para proteger a cabe\u00e7a. Via-se-lhe a camisa rota por baixo dos bra\u00e7os; os seus pobres interiores alvejavam por cima do traje de luces;\u00a0ficara-lhe \u00e0 mostra um bocado de pele e de p\u00ealo abaixo da barriga. Havia quem visse sangue e uma ponta dos intestinos. (&#8230;)<span style=\"line-height: 1.5em;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levaram ent\u00e3o o &#8220;espada&#8221; em bra\u00e7os para a porta dos ferros, e, no piedoso ajuntamento,\u00a0Moyanito, com os m\u00fasculos e os membros lassos, parecia uma crian\u00e7a inanimada que os bombeiros retiram de um inc\u00eandio, ou o velho sud\u00e1rio de uma Deposi\u00e7\u00e3o no T\u00famulo. Algumas senhoras tinham desmaiado no fundo dos camarotes; outras, sem pinga de sangue, tapavam a cara. E, como era o \u00faltimo toiro, o Inteligente nem p\u00f4de reanimar a assist\u00eancia mandando variar os toques.(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, como um mont\u00e3o de folhas mortas que uma reviravolta de quadrante enreda e arrasta no Outono, a multid\u00e3o dispersou e a arena ficou juncada de almofadas. A Recreio, fiel \u00e0s praxes e j\u00e1 com os m\u00fasicos de p\u00e9, come\u00e7ou a tocar, para dominar o p\u00e2nico. Mas, como homenagem \u00e0 valentia e ao azar de Moyanito, o passe-doble sa\u00eda arrastado e triste como uma marcha f\u00fanebre\u201d.<\/p>\n<h5>MAU TEMPO NO CANAL Vitorino Nem\u00e9sio<\/h5>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1094\" alt=\"vitorino nemesio\" src=\"http:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/07\/vitorino-nemesio.jpg\" width=\"180\" height=\"244\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mas, como homenagem \u00e0 valentia e ao azar de Moyanito, o passe-doble sa\u00eda arrastado e triste como uma marcha f\u00fanebre\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1093,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"spay_email":"","footnotes":"","jetpack_publicize_message":""},"categories":[53,8],"tags":[158,159,54,55,56],"class_list":["post-435","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","category-viagens","tag-acores","tag-azores","tag-mau-tempo-no-canal","tag-tourada","tag-vitorino-nemesio"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/07\/bull-azores.jpg","jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p4vyzh-71","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/435","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=435"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/435\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1095,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/435\/revisions\/1095"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1093"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=435"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=435"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=435"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}