{"id":388,"date":"2006-10-03T16:56:14","date_gmt":"2006-10-03T15:56:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aloisio.pranlaw.com\/?p=388"},"modified":"2019-04-06T11:26:18","modified_gmt":"2019-04-06T10:26:18","slug":"o-amor-vem-no-dicionario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/blog\/2006\/10\/03\/o-amor-vem-no-dicionario\/","title":{"rendered":"O Amor? Vem no dicion\u00e1rio."},"content":{"rendered":"<div class=\"symple-column symple-one-half symple-column-first  \">\n<p style=\"text-align: justify;\">[dropcap]E[\/dropcap]u gosto do Dicion\u00e1rio de L\u00edngua Portuguesa, da Porto Editora, particularmente da 6\u00aa edi\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 aqui aberto ao meu&nbsp;lado esquerdo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o tem <em>pedigree<\/em>. N\u00e3o \u00e9 um vetusto Aur\u00e9lio ou um quilom\u00e9trico Houaiss, nem frequenta estantes requintadas, com retorcidos em madeiras nobres. Por\u00e9m, \u00e9 franco e directo e n\u00e3o se perde em rodriguinhos nem tem hesita\u00e7\u00f5es sem\u00e2nticas, o que s\u00f3 dep\u00f5e a seu favor. Ou seja, n\u00e3o lateraliza o jogo, nem atrasa para o guarda-redes. \u00c9 um Jardel no tempo da Karen: bola nos p\u00e9s \u00e9 bola na rede.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho para mim que o Dicion\u00e1rio cor de laranja est\u00e1 subaproveitado pelo g\u00e9nero humano. N\u00e3o, n\u00e3o exagero &#8211; uem se limita a lan\u00e7ar m\u00e3o dele para resolver a ocasional d\u00favida ortogr\u00e1fica ou para decifrar a semi\u00f3tica de algum cronista mais \u201cmete-nojo\u201d, desperdi\u00e7a olimpicamente um armaz\u00e9m de civiliza\u00e7\u00e3o, devidamente coada de excresc\u00eancias e impurezas que s\u00f3 nos atrapalhariam. O essencial da Natureza Humana est\u00e1 l\u00e1 todo, resolvido e explicadinho, pronto a usar, para benef\u00edcio, at\u00e9, do mentecapto mais empedernido. Ent\u00e3o, em mat\u00e9ria de metaf\u00edsica, o meu Dicion\u00e1rio \u00e9 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o! D\u00favida ou ang\u00fastia existencial que trespasse o meu humilde esp\u00edrito tem a exacta dura\u00e7\u00e3o do tempo que demoro a chegar junto do Dicion\u00e1rio de L\u00edngua Portuguesa da Porto Editora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem nunca comeu distraidamente uma tosta mista a magicar sobre o sentido da vida que atire a primeira pedra! \u00c9 ou n\u00e3o \u00e9 um verdadeiro <em>sudoku<\/em>? Garanto aos n\u00e3o iniciados que \u00e9 uma ma\u00e7ada das mais bravas, capaz de nos&nbsp;tirar anos de vida. Mas, pergunto eu: porqu\u00ea escolher a flagela\u00e7\u00e3o, meus senhores, se temos tudo devidamente dissecado no&nbsp;dicion\u00e1riozinho?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&#8211;<span style=\"color: #000000;\"><strong>Vida<\/strong><\/span>: s. f.; estado de actividade dos animais e das plantas; o tempo que decorre desde o nascimento at\u00e9 \u00e0 morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 0px;\">Com esta clareza cristalina facilmente entendemos o sentido da vida: Nascemos com o prop\u00f3sito de participarmos em actividades. Por isso, toca a bulir, n\u00e3o v\u00e1 morrermos de repente. Assunto resolvido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o? N\u00e3o disse? Chego a&nbsp;arrepiar-me com a&nbsp;efic\u00e1cia do dicion\u00e1rio nestas quest\u00f5es ontol\u00f3gicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho particularmente interessante o caso do Amor. O Amor sendo um produto da civiliza\u00e7\u00e3o, tem tirado o sono \u00e0 gente civilizada.&nbsp;Digo \u00e0 gente&nbsp;civilizada, porque os&nbsp;outros, os b\u00e1rbaros, conhecem apenas a parte prazenteira do sistema reprodutivo humano e, por isso, n\u00e3o t\u00eam problemas nesse departamento. Limitam-se a aproveitar a b\u00ean\u00e7\u00e3o, com&nbsp;evidentes benef\u00edcios para o seu&nbsp;equil\u00edbrio emocional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s, os civilizados, desde o tempo do Crescente F\u00e9rtil, que, por manifesta falta do que fazer, come\u00e7amos um longo processo tendente a complicar a mat\u00e9ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reconhe\u00e7a-se que, na altura, sem os conhecimentos cient\u00edficos de agora, devia ser dif\u00edcil acreditar que sendo a tarefa de perpetuar a esp\u00e9cie t\u00e3o deliciosa e remuneradora de levar a cabo, n\u00e3o lhe tivesse associado um custo oculto ou uma cl\u00e1usula penal escondida em hier\u00f3glifos pequenin\u00edssimos, tipo ap\u00f3lice de seguro. \u00c9 que somos desconfiados por natureza, porque dessa desconfian\u00e7a, desse estado de alerta permanente, depende a nossa sobreviv\u00eancia. Por isso compreendo.<\/div>\n<div class=\"symple-column symple-one-half symple-column-last  \">\n<p style=\"text-align: justify;\">O certo \u00e9 que face \u00e0 aus\u00eancia de ind\u00edcios da exist\u00eancia desse custo associado, resolvemos invent\u00e1-lo, misturando culpa e ang\u00fastia em doses exageradas, f\u00f3rmula que, ao longo de milhares de anos, foi recebendo intrincados melhoramentos (ou pioramentos, consoante a perspectiva) e refinados contributos de toda a sorte de gente desocupada (aspirantes a poetas, porteiros, profetas, escribas, frades, gerentes comerciais, etc.), at\u00e9 atingir o&nbsp;ponto de n\u00e3o&nbsp;retorno em que nos encontramos hoje. Estima-se que, s\u00f3 no inc\u00eandio da Biblioteca de Alexandria, se tenham perdido 25 000 volumes, metade dos quais em verso alexandrino, sobre as vicissitudes do Amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, a busca da natureza e ess\u00eancia do amor, o que quer que isso seja, transformou-se no que \u00e9 hoje: um dos pilares da civiliza\u00e7\u00e3o e parte integrante do seu conceito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio t\u00ednhamos um honesto incentivo \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o, que nos era oferecido, de borla, pela M\u00e3e Natureza, que, para tal, engendrou uma complexa interac\u00e7\u00e3o bio-qu\u00edmica de \u00e1cidos e bases. Hoje temos uma teia de ang\u00fastias, neuras e melancolias que nos reduzem o pr\u00e9mio \u00e0 dimens\u00e3o do rid\u00edculo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somos uma esp\u00e9cie de sucesso porque a nossa multiplica\u00e7\u00e3o \u00e9, incomparavelmente, a melhor coisa que se pode arranjar para fazer, independentemente da hora ou das condi\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas que se fa\u00e7am&nbsp;sentir. Fosse a perpetua\u00e7\u00e3o um mero&nbsp;dever e, relapsos como somos, cedo ceder\u00edamos aos encantos duma qualquer Playstation fornecedora de adrenalina port\u00e1til, caminhando alegremente para a extin\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Pena que, quando a deriva\u00e7\u00e3o do prop\u00f3sito do Amor se iniciou, l\u00e1 para os finais do Neol\u00edtico, n\u00e3o houvesse um Dicion\u00e1rio Porto Editora \u00e0 m\u00e3o, aberto na p\u00e1gina 95<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">\u2013&nbsp;<strong>Amor<\/strong>:<em> s.m. sentimento que nos impele para o objecto dos&nbsp;nossos desejos<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada mais simples. Caso encerrado, pois o Amor vem no dicion\u00e1rio.&nbsp;T\u00ednhamos sido poupados a muito sofrimento sem sentido. E sobretudo, a muita literatura enjoada, o que n\u00e3o \u00e9,&nbsp;de todo, despiciendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando muito, sobrar-nos-ia a perplexidade de Lloyd Cole; literalmente:<em> Alguma vez estaremos preparados para que nos quebrem o cora\u00e7\u00e3o?&nbsp;<\/em>Suspeito que a resposta seja negativa. \u00c9 que n\u00e3o vem no dicion\u00e1rio.<\/div>\n<div class=\"symple-clear-floats\"><\/div>\n<p>Ter\u00e7a-feira, 3 de Outubro de 2006<\/p>\n<p><em>Lloyd Cole \u201cAre you ready to be heartbroken\u201d, em fundo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acho particularmente interessante o caso do Amor. 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