{"id":1619,"date":"2015-03-28T17:45:03","date_gmt":"2015-03-28T17:45:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/?p=1619"},"modified":"2019-07-22T22:42:12","modified_gmt":"2019-07-22T21:42:12","slug":"rumo-a-fez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/blog\/2015\/03\/28\/rumo-a-fez\/","title":{"rendered":"Rumo a Fez"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/DSC_1988.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1613 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/DSC_1988.jpg\" alt=\"DSC_1988\" width=\"2896\" height=\"1629\" srcset=\"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/DSC_1988.jpg 2896w, https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/DSC_1988-300x168.jpg 300w, https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/DSC_1988-1024x576.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 2896px) 100vw, 2896px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-family: helvetica, arial, sans-serif; font-size: 10pt; color: #999999;\">Estrada de T\u00e2nger para Tetu\u00e3o | 2014 \u00a9 Alo\u00edsio Nogueira<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[hr][dropcap]A[\/dropcap] pensar no neg\u00f3cio das mantas, l\u00e1 sa\u00edmos de Xexu\u00e3o, muito ronceiramente, subindo uma estrada que se debru\u00e7ava em varanda sobre a cidade e que nos haveria de fazer regressar \u00e0 Estrada Nacional n\u00famero 2 ou 13, conforme as opini\u00f5es, que, essa sim, nos h\u00e1-de levar rumo a sul, em demanda de Fez, onde queremos chegar, tudo correndo bem, ainda com luz deste dia de s\u00e1bado de calor abafado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vinha com o fito de assinalar devidamente a passagem dos 1 000 km de jornada, parando no exacto momento em que o milheiro fosse cruzado pela 505 e fazendo alguma macacada que servisse de registo condigno da efem\u00e9ride, como se fossemos a marinhagem na nau de Gil Eanes, a deixar padr\u00e3o \u00e0 passagem do Bojador, cabo que fica por estas geografias marroquinas, mas mais l\u00e1 para baixo, em latitudes passantes do Tr\u00f3pico de C\u00e2ncer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 falta de genu\u00ednos padr\u00f5es quinhentistas na nossa bagagem, fez-se um desengra\u00e7ado registo v\u00eddeo no local, que serviu muito bem, j\u00e1 que, ademais, o s\u00edtio n\u00e3o \u00e9 digno de nota e pouco mais serventia tem do que para um al\u00edvio r\u00e1pido da bexiga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cumprida a fun\u00e7\u00e3o e retomado o caminho, foram-se sucedendo os quil\u00f3metros, \u00e0 raz\u00e3o de mil metros cada um, de acordo com o padr\u00e3o m\u00e9trico em uso nestas terras, metros esses, cada um deles mais aborrecido que o anterior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 na travessia da cidade de Ouezzane a viagem animou um pouco, dada a grande soma de gentes que l\u00e1 cirandava pelas ruas, com muita predomin\u00e2ncia da mocidade, que \u00e9, ali\u00e1s, a agrad\u00e1vel maioria demogr\u00e1fica do pa\u00eds. Ou se n\u00e3o \u00e9, parece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste primeiro dia nas \u00e1fricas j\u00e1 deu para perceber que qualquer pequena vil\u00f3ria deste admir\u00e1vel Marrocos est\u00e1 repleta de gente no vigor dos verdes anos, sempre em amena cavaqueira uns com os outros ou com os seus modernos e omnipresentes telem\u00f3veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cidade h\u00e1-de ter umas 50 mil almas e tirando a muita gente que vimos nas ruas, pouca coisa mais merecer\u00e1 o trabalho de registo, salvo o <em>fait divers<\/em> de que \u00e9 cidade santa para os judeus que por aqui outrora abundavam em tempos mais ecum\u00e9nicos, e de que resultaram muitas sepulturas de marabutos (ide l\u00e1 \u00e0 wikip\u00e9dia).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretido que estava nestas cogita\u00e7\u00f5es, distra\u00ed-me das fun\u00e7\u00f5es de navegador de que vinha investido e n\u00e3o dei conta que para mantermos a rota para sul, como era a nosso objectivo, a estrada, naquele ponto enganadora, requeria um an\u00f3nimo desvio \u00e0 esquerda, a que n\u00e3o demos cumprimento e, sem darmos conta, l\u00e1 nos metemos muito distra\u00eddos em direc\u00e7\u00e3o a Rabat.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o fora o Sul ter come\u00e7ado a parecer-se demasiado com o Oeste e ter\u00edamos entrado em gl\u00f3ria em Rabat pensando estar em Fez. Felizmente alguns quil\u00f3metros andados verificadas coordenadas e azimutes, deu-se pelo engano e n\u00e3o restou outro rem\u00e9dio sen\u00e3o dar meia volta e retornar ao s\u00edtio que exigia a desanda \u00e0 esquerda e cumpri-la a preceito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/DSC_2134.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1614 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/DSC_2134.jpg\" alt=\"DSC_2134\" width=\"1920\" height=\"1289\" srcset=\"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/DSC_2134.jpg 1920w, https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/DSC_2134-300x201.jpg 300w, https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/DSC_2134-1024x687.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a>Repostos no caminho justo, estamos, \u00e0 sa\u00edda de Ouezzane, a uma boa grosa de quil\u00f3metros do nosso destino de hoje, onde iremos pernoitar. O caminho vai desembara\u00e7ado de tr\u00e2nsito, sucedem-se as casas e campos e os campos e casas; monte aqui, vale acol\u00e1, tudo razoavelmente desinteressante e com geral monotonia, apenas quebrada, aqui e ali, pela contempla\u00e7\u00e3o dos not\u00e1veis carr\u00eagos com que os motoristas locais, habilidosos no equil\u00edbrio das massas, castigam carros e furgonetes, que, coitados, l\u00e1 se arrastam pelas estradas do reino sem queixume e com not\u00e1vel resili\u00eancia, apesar de j\u00e1 c\u00e1 andarem, pelo menos, desde o tempo de Suleim\u00e3o, o magn\u00edfico, tal a camada de ferrugem exibem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Grosso modo, Fez \u00e9 a \u00fanica coisa que trouxemos j\u00e1 tratada para Marrocos: vamos de hotel marcado, para bom descanso e retempero das for\u00e7as, porque \u00e9 de Fez para baixo \u00e9 que come\u00e7a o baile.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escolha desta antiqu\u00edssima metr\u00f3pole imperial, prenhe de 2 milh\u00f5es de habitantes e onde se acha a maior medina do mundo, para ser a nossa \u00faltima cama fofa desta viagem ao desconhecido, n\u00e3o foi fruto do acaso. D\u00e1-se o caso da cidade estar \u00e0 dist\u00e2ncia certa para, saindo de T\u00e2nger e passando por Xexu\u00e3o, vir nas calmas e chegar ao fim da tarde. Depois, e sobretudo, \u00e9 em Fez que est\u00e3o as famosas f\u00e1bricas de curtumes, que apesar do agoniante pivete que exalam em plena cidade medieval, por ainda se manterem fi\u00e9is \u00e0s t\u00e9cnicas tradicionais de curtimento de peles, prestam-se \u00e0 mais iconogr\u00e1fica fotografia da cidade: as famosas \u201c<em>tanneries<\/em>\u201d. Ou seja, basicamente, a escolha resultou da expectativa de uma determinada fotografia, o que ro\u00e7a a idiotia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confesso que, apesar de ter tido o cuidado de escolher o hotel junto \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o Central dos caminhos-de-ferro, em local central e de aparentes bons e diretos acessos, vinha a moer uma apreens\u00e3o, que crescia \u00e0 medida que a cidade se aproximava. Era receio da dimens\u00e3o da cidade desconhecida e do eventual caos de tr\u00e2nsito e da proverbial condu\u00e7\u00e3o temer\u00e1ria dos locais, o que tudo seria agravado em dobro ou triplo se entretanto ca\u00edsse a noite e nos fizesse perder naquela babil\u00f3nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodamos j\u00e1 a faltar uma meia d\u00fazia de quil\u00f3metros do nosso destino, o sol a querer ir \u00e0 sua vida, o tr\u00e2nsito a engrossar e eis que ao lado da 505, em pleno andamento, um tipo montado numa zundapp local, bate no vidro da porta do lado do condutor e faz men\u00e7\u00e3o de precisar de falar connosco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dirige-se-nos num misto de todas as l\u00ednguas vivas conhecidas no humanidade, mas com preval\u00eancia da sintaxe espanhola, dizendo que estava \u00e0 nossa espera para nos conduzir ao \u00a0hotel. Face \u00e0 aus\u00eancia de encomenda do servi\u00e7o, declinamos gentilmente a oferta. &#8211; Que n\u00e3o havia necessidade, que estava tudo controlado e que sab\u00edamos muito bem o nosso caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada que demovesse o guia da motorizada. Ou porque tivesse topado que est\u00e1vamos a mentir com quantos dentes t\u00ednhamos na boca ou porque fosse requisito da sua fun\u00e7\u00e3o de guia ser chato elevado \u00e0 d\u00e9cima pot\u00eancia, o certo \u00e9 que foi desenrolando o seu paleio, a nosso lado, montado no seu alaz\u00e3o mec\u00e2nico, por uns bons 2 ou 3 quil\u00f3metros, optando por real\u00e7ar na sua disserta\u00e7\u00e3o comercial os muitos e variados perigos da cidade, a sua estreita e intrincada malha urbana, sem vest\u00edgios de sinal\u00e9tica e, por isso, incompreens\u00edvel para qualquer ocidental, concluindo que jamais encontrar\u00edamos o nosso caminho e que provavelmente o melhor seria nem entrar. A nossa sorte era que ele estava ali, a nosso lado, dispon\u00edvel, montado na sua zundapp, que em mat\u00e9ria de fumo e barulho relegava o pr\u00f3prio inferno para segund\u00edssimo plano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s l\u00e1 \u00edamos repetindo, com um sorriso amarelo, que gracias, pero no havia necessidade, at\u00e9 vermos que nada adiantava. A\u00ed, sil\u00eancio durante algum tempo, olhos postos na estrada e, j\u00e1 em desespero, vidro corrido at\u00e9 cima e acelera M\u00e1rio, que \u00e9 a descer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada por\u00e9m que fizesse demover o nosso companheiro de viagem, que recorrendo ao fundo de reserva da cavalagem do motor da sua motorizada, ainda se manteve a nosso lado durante mais alguns minutos a tentar vender os seus servi\u00e7os, recorrendo a uma conhecida t\u00e9cnica comercial de resultados infal\u00edveis no convencimento de clientes mais renitentes, a qual compreende a pr\u00e1tica reiterada de insultos do piorio e o lan\u00e7amento de pragas at\u00e9 \u00e0 5\u00aa gera\u00e7\u00e3o. Fomos assim obsequiados na nossa chegada a Fez por sensivelmente um quil\u00f3metro de seus filhos desta, seus filhos daquela e ide-vos quilhar, com F.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando j\u00e1 est\u00e1vamos a ficar habituados \u00e0 sua presen\u00e7a, ali ao nosso lado a mandar vir como um companheiro de viagem mais rabugento, o homem ficou para tr\u00e1s, num trecho da estrada mais desimpedido de tr\u00e2nsito, onde a 505 puxou dos seus gal\u00f5es mec\u00e2nicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Preocupado que vinha com o que nos reservaria a cidade desconhecida, este epis\u00f3dio, obviamente, n\u00e3o ajudou a pacificar a minha mente. Por\u00e9m quando ia come\u00e7ar a preocupar-me a s\u00e9rio com a situa\u00e7\u00e3o e chorar, surge a placa indicativa da dire\u00e7\u00e3o da esta\u00e7\u00e3o de caminho-de-ferro, \u00e0 nossa direita e, em menos de 5 minutos, a 505 estava estacionada em bom recato frente \u00e0 porta do hotel, a qual se abre para os horizontes despejados da grande e moderna Pra\u00e7a da Esta\u00e7\u00e3o de Fez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olha o dinheir\u00e3o que poupamos no guia, de cuja companhia j\u00e1 come\u00e7o a sentir falta, confesso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estrada de T\u00e2nger para Tetu\u00e3o | 2014 \u00a9 Alo\u00edsio Nogueira [hr][dropcap]A[\/dropcap] pensar no neg\u00f3cio das mantas, l\u00e1 sa\u00edmos de Xexu\u00e3o, muito ronceiramente, subindo uma estrada que se debru\u00e7ava em varanda sobre a cidade e&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1613,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"spay_email":"","footnotes":"","jetpack_publicize_message":""},"categories":[41,53,230,8],"tags":[274,127],"class_list":["post-1619","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fotografia","category-literatura","category-marrocos-2014","category-viagens","tag-fez","tag-marrocos"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/DSC_1988.jpg","jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p4vyzh-q7","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1619","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1619"}],"version-history":[{"count":34,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1619\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2594,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1619\/revisions\/2594"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1613"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1619"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1619"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1619"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}