{"id":1400,"date":"2014-11-03T02:09:27","date_gmt":"2014-11-03T02:09:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/?p=1400"},"modified":"2019-04-04T18:31:13","modified_gmt":"2019-04-04T17:31:13","slug":"em-campomaior-iscas-de-figado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/blog\/2014\/11\/03\/em-campomaior-iscas-de-figado\/","title":{"rendered":"Em Campomaior, iscas de f\u00edgado."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Santas.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-1402 size-full\" src=\"http:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Santas.jpg\" alt=\"Santas\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Santas.jpg 1920w, https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Santas-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Santas-1024x682.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a>[dropcap]A[\/dropcap] Flor da Rosa l\u00e1 estava, com o seu famoso mosteiro de dar pousada aos viajantes finos que n\u00e3o v\u00e3o com a tralha \u00e0s costas como \u00edamos n\u00f3s. Apesar do bicho ainda estar por matar e a Rosa ser bastante omissa no ramo da restaura\u00e7\u00e3o, ainda demos uma volta r\u00e1pida ao cen\u00f3bio, que mostrava aos turistas uma cole\u00e7\u00e3o de escultura medieval do Museu Nacional de Arte Antiga, que nos ilustrou bastante no assunto, com a vantagem de ser de borla.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis-nos em Portalegre, passante um Crato sem chama, a pedir me\u00e7as ao hom\u00f3nimo ministro. Portalegre parecia ser uma escolha segura para um almocinho r\u00e1pido, que restaurasse a f\u00e9 nos servi\u00e7os de hotelaria e similares do nosso interior, tantas vezes cantado pelos seus saberes no que toca aos sabores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, como ainda era cedo e ainda havia muito quil\u00f3metro de estrada para vencer, uma r\u00e1pida volta ao Rossio, ausente de chamarizes de comeres que despertassem a curiosidade, logo nos deitou a ponderar Campomaior, sonho antigo de visita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se vai de prop\u00f3sito a Campomaior, que aquilo \u00e9 terra um bocadinho desviada e a desam\u00e3o, mas, j\u00e1 que est\u00e1vamos por ali, ficava o assunto tratado e a localidade desarriscada do meu caderno das terras a ver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, Campomaior tinha a vantagem de nos permitir entrar em Badajoz por cima, que \u00e9 por onde os badajozenses menos esperam que entremos e est\u00e3o muito desprecatados pelo Norte. Est\u00e3o mais habituados e mais que preparados para o <em>oh Elvas, oh Elvas, Badajoz \u00e0 vista<\/em>. Esta conversa parece descabida, mas n\u00e3o \u00e9. N\u00f3s n\u00e3o esquecemos as pend\u00eancias hist\u00f3ricas espanholas e Oliven\u00e7a \u00e9 nossa!, com Guerra das Laranjas ou sem Guerra das Laranjas. O segredo da recupera\u00e7\u00e3o de Oliven\u00e7a h\u00e1-de ser, no meu modesto entender da arte da guerra, entrar em Badajoz por cima, tese de t\u00e1tica militar que diga-se, testamos com sucesso, como a diante se tratar\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De maneiras que um \u201cUi, em Campomaior \u00e9 que se deve comer bem!\u201d foi suficiente para nos p\u00f4r a andar do rossio portalegrense em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 capital da flor de papel. O diabo foi encontrar a competente placa directora, que parece que os de Portalegre andam de candeias \u00e0s avessas com os vizinhos torrefatores de caf\u00e9. \u00c9 que, em Portalegre, placa para Campomaior abunda como cabelo de sapo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fica aqui o alerta cidad\u00e3o para os competentes servi\u00e7os camar\u00e1rios e para o senhor director geral do Plano Rodovi\u00e1rio Nacional ou l\u00e1 como \u00e9 que chama. E j\u00e1 que falamos nisso, bem podem limpar as m\u00e3os \u00e0 parede com o servi\u00e7o que nos arranjaram. T\u00ednhamos um plano rodovi\u00e1rio t\u00e3o jeitoso, uma rede t\u00e3o maneirinha de Estradas Nacionais, que quase n\u00e3o era preciso nem mapas nem GPS, bastava ir seguindo as estrat\u00e9gicas tabuletas at\u00e9 ao nosso destino e pronto. Agora, colocaram IP\u2019s em cima de EN\u2019s, que de repente passam a IC\u2019s e mais \u00e0 frente transfiguram-se em AE\u2019s, numa tal confus\u00e3o que at\u00e9 S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o sente dificuldade em proteger os seus devotos que se aventuram por esses caminhos do diabo, t\u00e3o minguados de tabuletas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 quarta ou quinta tentativa, l\u00e1 calhamos de acertar na carretera e, passada Arronches de rasp\u00e3o e trespassada Degolados bem a meio (livra!),\u00a0 eis-nos \u00e0 entrada da raiana Campomaior, que nos h\u00e1-de resgatar os est\u00f4magos e a f\u00e9 nas cozinheiras locais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dadas v\u00e1rias voltas ao jardim do coreto, que tem a curiosa forma de losango, em homenagem \u00e0 arruma\u00e7\u00e3o t\u00e1tica da m\u00edtica equipa de futebol local, que acabou de repente, deixando saudades na afici\u00f3n, o certo \u00e9 que o nervoso miudinho se come\u00e7ou a apoderar das nossas hostes, pois dava-se o caso de que, esquadrinhados os estabelecimentos comerciais de diversos ramos que se nos apresentavam na baixa campomaiorense, nenhum deles se dedicava \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o, o que, atentos os exemplos que v\u00ednhamos colecionando desde Proen\u00e7a-a-<del>Nova<\/del>\u00a0Deserta, come\u00e7avam a constituir um padr\u00e3o preocupante, de tal modo que come\u00e7amos a achar atraente uma visita n\u00e3o tur\u00edstica \u00e0 monumental Capela dos Ossos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felizmente n\u00e3o foi necess\u00e1ria a visita \u00e0 capela nem \u00e0 reserva das ra\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia que lev\u00e1vamos para o caso de necessidade extrema derivada de cat\u00e1strofe ou fomeca durante a noite, o que quer ocorresse primeiro. Fossadas as ruas mais interiores, que se iam revelando igualmente avaras de restaurantes, enfim l\u00e1 encontramos a pens\u00e3o Primavera ou Rocha, j\u00e1 n\u00e3o me lembro, que prometia comida caseira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prometia e cumpriu \u00e0 risca, apresentando-nos uma honesta travessa de iscas de f\u00edgado, em competente cama de cebolada, acompanhada da batata cozida de lei. De sobremesa uma sericaia t\u00e3o sem gl\u00f3ria, que sendo anunciada como especialidade da casa, n\u00e3o fossem as iscas e ficava a casa mal no retrato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo somado, ainda assim n\u00e3o fica aqui mal uma recomenda\u00e7\u00e3o: em Campomaior j\u00e1 sabem &#8211; come-se umas iscas de f\u00edgado jeitosas na Pens\u00e3o Primavera (ou Rocha, j\u00e1 n\u00e3o me lembro).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem mais delongas, siga a excurs\u00e3o para Badajoz que j\u00e1 vamos tarde, e acho que vem chuva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00e1 entramos na capital dos caramelos, por cima como o previsto, sem espiga. Os de Badajoz esperam a invas\u00e3o vinda do Oeste e, tal a confian\u00e7a, t\u00eam o Norte miseravelmente desguarnecido. Se vi\u00e9ssemos com tempo t\u00ednhamos recuperado Oliven\u00e7a para o rega\u00e7o da p\u00e1tria m\u00e3e sem disparar um tiro, s\u00f3 na base do paleio. Desgra\u00e7adamente atrasados, ignoramos a tabuleta da inf\u00e2mia que anuncia a estrada para \u201cOlivenza\u201d, cuspimos aquele ch\u00e3o 3 vezes, e tenham l\u00e1 paci\u00eancia oliventinos, mas desta vez n\u00e3o podemos ir libertar-vos do jugo espanhol, h\u00e1-de ficar para outra mar\u00e9 em que venhamos com mais folga de tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que magnifica \u00e9 a estrada que nos h\u00e1-de levar at\u00e9 Zafra, onde desaguaremos na Rota da Prata. Que bonitas tempestades de grossa chuva se formam \u00e0 nossa frente, como se atravess\u00e1ssemos as pradarias do midwest americano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os quil\u00f3metros v\u00e3o-se amontoando sem hist\u00f3ria. Passa-se a mem\u00f3ria de Expo 92 de Sevilha. E finalmente uma novidade: campos imensos, a perder de vista, de algod\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algod\u00e3o em espanhol era coisa que n\u00e3o conhecia. Veio-me \u00e0 lembran\u00e7a o Mar de Aral de boa mem\u00f3ria, que nunca l\u00e1 tendo ido era como se l\u00e1 tivesse estado. Palpita-me que ao Alqueva estar\u00e1 reservada a sorte do Mar de Aral, que quase secou e est\u00e1 hoje reduzido a pouco mais que uma charca, devido a experi\u00eancias sovi\u00e9ticas nos anos 60, que muito prudentemente meteu desvios de rios para irriga\u00e7\u00e3o das ent\u00e3o rec\u00e9m introduzidas culturas de algod\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E tamb\u00e9m me veio \u00e0 lembran\u00e7a a necessidade de meter gas\u00f3leo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ca\u00edste, noite, assim t\u00e3o de repente e n\u00f3s ainda longe de Tarifa, onde finda a jornada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felizmente que o Tarik \u00e9 f\u00e1cil de encontrar em Tarifa. Gostei do hostal Tarik, cujo nome me pareceu premonit\u00f3rio, pois vamos fazer precisamente o que Tarik fez em 711, s\u00f3 que de c\u00e1 para l\u00e1. Mas, sobretudo, porque sempre tive um fraco por\u00a0quartos de hotel cuja entrada se faz pela varanda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[dropcap]A[\/dropcap] Flor da Rosa l\u00e1 estava, com o seu famoso mosteiro de dar pousada aos viajantes finos que n\u00e3o v\u00e3o com a tralha \u00e0s costas como \u00edamos n\u00f3s. 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