{"id":1316,"date":"2008-07-29T18:17:18","date_gmt":"2008-07-29T17:17:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/?p=1316"},"modified":"2019-04-03T23:15:41","modified_gmt":"2019-04-03T22:15:41","slug":"o-premio-camoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/blog\/2008\/07\/29\/o-premio-camoes\/","title":{"rendered":"O Pr\u00e9mio Cam\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\">\n\n<div class=\"one_half\">\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">[dropcap]E[\/dropcap]nt\u00e3o o Jo\u00e3o Ubaldo l\u00e1 ganhou o Pr\u00e9mio Cam\u00f5es e facturou \u20ac 100 000,00? Ganhou porque, nas suas palavras, - mereceu, ora! o que a mim me parece ser a melhor raz\u00e3o para se ganhar alguma coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justify\">Mereceu sim senhor, porque al\u00e9m de ser um ex\u00edmio contador de hist\u00f3rias, conta-as sem gastar as palavras ou usar as que j\u00e1 est\u00e3o gastas. \u00c9 um acrescentador de L\u00edngua, of\u00edcio cujos oficiais come\u00e7am j\u00e1 a rarear. Eu e o boi Alandel\u00e3o estamos a modos que vaidosos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">- Eu, porque h\u00e1 muito que sou tu c\u00e1 tu l\u00e1 com Itaparica, e vinha vaticinando, para mim mesmo, que mais cedo ou mais tarde algu\u00e9m haveria de ter o bom senso de ter o meu bom gosto. Come\u00e7o, ali\u00e1s, a ter medo do acerto dos meus vatic\u00ednios em mat\u00e9ria de gostos e tend\u00eancias;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\" align=\"justify\">- O boi Alandel\u00e3o, por raz\u00f5es que n\u00e3o v\u00eam aqui ao caso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para quem nunca leu, deixo aqui, devidamente desautorizado, uma das coisas mais bonitas que algu\u00e9m j\u00e1 escreveu sobre Lisboa. Mesmo quem n\u00e3o gosta de Lisboa, depois de ler fica com pena de n\u00e3o gostar. \u00c9 do Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00a0<\/div>\n<div class=\"one_half last\">\n<p align=\"justify\"><a href=\"http:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/ubaldo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-large wp-image-1329\" src=\"http:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/ubaldo-1024x680.jpg\" alt=\"Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro\" width=\"720\" height=\"478\" srcset=\"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/ubaldo-1024x680.jpg 1024w, https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/ubaldo-300x199.jpg 300w, https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/ubaldo.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/a><\/p>\n<p align=\"justify\"><\/p>\n<p align=\"justify\"><\/p>\n<p align=\"justify\"><\/div>\n<div class=\"clear\"><\/div>\n<h3 style=\"color: #222222;\"><em><b>O Vagabundo de Lisboa<\/b><\/em><\/h3>\n\n<div class=\"one_half\">\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"justifiy\"><em>Subindo aqui a avenida que d\u00e1 para os fundos de minha casa, cumprimentando os passantes, parando para ver os meninos jogando bola no parque e assobiando uma musiquinha cujo nome n\u00e3o sei mas que, nesta manh\u00e3, n\u00e3o me sai da cabe\u00e7a, detenho-me na Pastelaria Brasil-Am\u00e9rica, para comprar uma caixa de f\u00f3sforos. N\u00e3o sou muito chegado a essa pastelaria \u2014 cuja \u00fanica qualidade (e, assim mesmo, question\u00e1vel) \u00e9 ser perto aqui de casa \u2014 porque as iscas que nela servem s\u00e3o de baixa qualidade e h\u00e1 um irm\u00e3ozinho lusitano que nela trabalha que gosta de me gozar. Mas esqueci o isqueiro em casa, tenho de comprar f\u00f3sforos. Encontro o mesmo irm\u00e3ozinho, ele me diz o pre\u00e7o, eu me confundo todo com as moedas, ele me goza outra vez. \u201cUm dia eu ainda lhe pego\u201d, penso eu, fingindo que n\u00e3o ligo, mas muito mal-intencionado intimamente.<\/em><\/p>\n<p align=\"justify\"><em>E prossigo avenida Estados Unidos acima, para pegar o metr\u00f4, que aqui se chama metro. O dia n\u00e3o est\u00e1 nem quente nem frio, h\u00e1 um belo sol, as sacadas dos apartamentos est\u00e3o todas floridas e vou ao Rossio em miss\u00e3o de vagabundagem. Acho-me um cidad\u00e3o lisboeta e me vejo tomado de um certo sentimento de orgulho, ao cruzar com minhas concidad\u00e3s, a maioria plenamente imbu\u00edda do mesmo esp\u00edrito primaveril e portanto usando umas blusinhas leves por cima da pele e balan\u00e7ando todos os tipos de simp\u00e1ticos e risonhos peitinhos, como \u00e9 \u2014 o Senhor seja louvado \u2014 do h\u00e1bito de tantas raparigas aqui. Respiro fundo, paro um pouco na subida, aproveito para prestar aten\u00e7\u00e3o na mo\u00e7a que de l\u00e1 vem, usando um chapeuzinho e uma esp\u00e9cie de colete em cima da tal blusinha, a qual mal esconde os tais peitinhos. Decido que n\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1ria uma discri\u00e7\u00e3o excessiva, consideradas as circunstancias atmosf\u00e9ricas t\u00e3o amenas e mais a minha exuberante lusofilia, de forma que, com tanta eleg\u00e2ncia quanto \u00e9 poss\u00edvel aos baianos, ponho as m\u00e3os nos bolsos do casaco, detenho o passo e espero a mo\u00e7a passar, com interesse. Ela ajeita a mecha do cabelo que lhe sai por um lado do chap\u00e9u, sorri vagamente como se estivesse lembrando de repente alguma coisa agrad\u00e1vel e passa triunfal a meu lado, reconhecendo t\u00e1cita e cordialmente o meu silencioso cumprimento e meus enc\u00f4mios \u00e0 boa forma de seu equipamento, t\u00e3o afavelmente mostrado. Uma safadeza min\u00fascula e inocente, que n\u00e3o me deixa remorsos e me faz achar o resto do caminho at\u00e9 o metro muito agrad\u00e1vel. Safadezazinha, ali\u00e1s, que, combinada com as milhares de outras safadezazinhas que, nesta manh\u00e3 ensolarada e irrespons\u00e1vel, haver\u00e3o de estar sendo cometidas em toda a nossa querida Lisboa, deixam a pessoa que respira fundo e n\u00e3o tem mal na consci\u00eancia, deixam essa pessoa \u2014 como direi? \u2014 assim meio peralta.<\/em><\/p>\n<em>Minha esta\u00e7\u00e3o \u00e9 a esta\u00e7\u00e3o de Roma. O metro \u00e9 pequeno e n\u00e3o mete medo, como o de Nova Iorque. Nem tem primeira classe, como tinha o de Paris antes de Mitterrand. Na gare, giro rapidamente o corpo para cumprimentar a mo\u00e7a que tripula a lojinha de fazer c\u00f3pias xerox de que sou fregu\u00eas. \u201cComo passou?\u201d, inquiro na minha melhor forma lusitana. \u201cOl\u00e1, como est\u00e1?\u201d, responde ela, rindo com um certo encanto t\u00edmido. Por alguma raz\u00e3o, considero esse epis\u00f3dio entusiasmante, resolvo comemorar, apresento cem escudos ao bilheteiro e compro uma caderneta! Uma caderneta \u00e9 um conjunto de bilhetes de metro que voc\u00ea pode usar a qualquer tempo e que saem a dez escudos, quando o bilhete individual custa quinze. Considero-me um mago das finan\u00e7as por haver concebido t\u00e3o fant\u00e1stica economia.<\/em>\n<p align=\"justify\"><em>Dentro do metro, a \u00fanica cautela que cabe observar \u00e9, se sentar, ficar atento para senhoras gr\u00e1vidas e outras pessoas a quem a lei e o costume garantem assento. Se a gente n\u00e3o se levantar imediatamente, ao ingresso de uma dessas pessoas, a rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico feminino, principalmente da parte de senhoras de preto e de bigode agudamente parecidas com uma tia-av\u00f3 nossa que morreu antes de termos idade para realmente apreci\u00e1-la, \u00e9 das mais sonoras. H\u00e1 discursos, estabelecem-se debates. Como o meu sotaque, suspeito eu, \u00e9 considerado primitivo, procuro abster-me e, al\u00e9m disso, n\u00e3o quero envergonhar Ruy Barbosa \u2014 o que \u00e9, como se sabe, obriga\u00e7\u00e3o de todo baiano. Logo no Areeiro entra o cego da ocarina, que, acompanhado por um senhor de bon\u00e9 e aspecto grave, toca seu instrumento com aquele ar destacado e long\u00ednquo dos cegos de feira do Nordeste, mas alguma coisa em sua express\u00e3o, alguma coisa desamparada e ansiosa, como tamb\u00e9m h\u00e1 nos cegos de feira do Nordeste, alguma coisa nos dedos que cobrem e descobrem rapidamente os buracos de barro da ocarina, como h\u00e1 nos dedos nordestinos que percutem as cordas das violas, alguma coisa imp\u00f5e uma rever\u00eancia instant\u00e2nea, um ar de contri\u00e7\u00e3o, que a gente nota se espalhar como tinta por um mata-borr\u00e3o, entre os passageiros. E depois h\u00e1 o som que ele tira dessa ocarina, estranhamente entrela\u00e7ado com o barulho do trem correndo por aqueles t\u00faneis de Lisboa, um som meio \u00e1rabe, meio sertanejo, meio misturado com tantas mem\u00f3rias absurdas. As mulheres remexem nas bolsas, \u00e0 espera de que passem o m\u00fasico cego e seu digno auxiliar, que utiliza o bon\u00e9 para recolher as moedas. Os homens metem as m\u00e3os nos bolsos, esperam disfar\u00e7ando, como se houvesse alguma paisagem para ver atrav\u00e9s das janelas. O trem vai chegar a Arroios, chia numa curva e o cego, indiferente ao gemido met\u00e1lico das rodas, multiplica repentinamente as notas da ocarina, causando emo\u00e7\u00e3o vis\u00edvel entre os passageiros, emo\u00e7\u00e3o que ele n\u00e3o enxerga mas presume, o que se depreende de um esbo\u00e7o de sorriso orgulhoso, que deixa passar pelos cantos da boca ocupada em soprar. Olha-se assim em torno, n\u00e3o \u00e9 o metro de Lisboa, s\u00e3o os fantasmas am\u00e1veis de nossas inf\u00e2ncias, s\u00e3o sons j\u00e1 ouvidos, momentos j\u00e1 vividos, saudades resgatadas, somos n\u00f3s. Ali parados, segurando uma al\u00e7a no metro de Lisboa, coisas ancestrais, n\u00f3s. Disfar\u00e7ando tamb\u00e9m, cato uma moeda, enfio-a no bon\u00e9 meio dobrado do assistente do cego. Cego este que sente a chegada \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de Arroios, tem mais encantamentos a obrar em outras partes, e ent\u00e3o sai acompanhando seu auxiliar e segue pelas escadas da gare acima, deixando uma trilha de sons da ocarina como uma fita espiralada no ar, que, mesmo depois de fechadas; as portas e retomada a nossa marcha, ainda persiste em nossa pequena comunidade.<\/em><\/p>\n<p align=\"justify\"><em>Meu lugar favorito de Lisboa, naturalmente, \u00e9 o Rossio, onde invariavelmente desemboco pela mesma sa\u00edda do metro, em cima da Su\u00ed\u00e7a, uma pastelaria de dezenas de mesas na cal\u00e7ada, em que as pessoas passam o dia todo tomando um cafezinho (uma \u201cbica\u201d) mordiscando bolinhos e paquerando as n\u00f3rdicas que ali v\u00eam fazer a pra\u00e7a. Graves decis\u00f5es: vou na dire\u00e7\u00e3o do Caf\u00e9 Nicola ou passo antes pela Pra\u00e7a da Figueira? N\u00f3s, vagabundos, temos problemas como quaisquer outros mortais.<\/em><\/p>\n<p style=\"color: #222222;\"><\/div>\n<div class=\"one_half last\">\n<p align=\"justify\"><em>Pela Pra\u00e7a da Figueira, eu pego a rua da Madalena, onde se situa minha ervan\u00e1ria favorita. Julgo de bom alvitre passar pela ervan\u00e1ria,afinal h\u00e1 muito tempo que n\u00e3o vou l\u00e1, preciso saber das novidades. E, assim, imerso num incr\u00edvel rebuli\u00e7o de gente, cheiros, cores e ru\u00eddos, marcho para a Pra\u00e7a da Figueira. H\u00e1 um camel\u00f4 muito s\u00e9rio, demonstrando um fant\u00e1stico cortador de vidro. Pega laminas de vidro de uma caixa e, conversando em alta velocidade, corta fatias de vidro como algu\u00e9m tiraria rodelas de uma cenoura. \u201cQuanto \u00e9 o cortador a\u00ed?\u201d pergunto eu, subitamente, achando que n\u00e3o posso passar sem um cortador de vidro \u2014 n\u00e3o h\u00e1 coisa mais indispens\u00e1vel para um escritor.\u00a0S\u00e3o 150 escudos, pago sem discutir e vou de cortador em punho para a ervan\u00e1ria, cujo cheiro indescrit\u00edvel j\u00e1 come\u00e7o a sentir desde a esquina. Lembro os prospectos: h\u00e1 ch\u00e1s e tisanas para tudo, inclusive para duas doen\u00e7as que pretendo divulgar bastante, quando voltar ao Brasil: a fraqueza nervosa (da qual j\u00e1 pade\u00e7o, esporadicamente) e o afrontamento de senhoras. Ainda n\u00e3o consegui informa\u00e7\u00f5es precisas a respeito do que \u00e9 o afrontamento de senhoras e tive vergonha de perguntar ao caixeiro meu amigo, na ervan\u00e1ria. Mas qualquer um concordar\u00e1 que se trata de uma enfermidade a ser gravemente considerada. \u00a0Resolvo levar alguns sacos de ch\u00e1 para afrontamento de senhoras, quando voltar ao Brasil, em meio a minha bagagem de ervas milagrosas, com as quais pretendo receitar todo mundo. Na ervan\u00e1ria, n\u00e3o muitas novidades, a n\u00e3o ser umas p\u00edlulas de alho de fabrica\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, que o caixeiro me recomenda com \u00eanfase. Mas, as antigas? \u2014 pergunto eu, hesitante. Continuam boas, responde ele, mas nestas c\u00e1 v\u00ea-se o \u00f3leo atrav\u00e9s das c\u00e1psulas. De fato, v\u00ea-se o \u00f3leo. \u00c9 um argumento irresist\u00edvel. Compro duas caixas, umas certas p\u00edlulas de pau d\u2019arco, uma garrafinha de extrato de ginseng, mais umas miudezas e, com meu saquinho, volto pausadamente \u00e0 Pra\u00e7a da Figueira, parando para olhar as vitrinas (as montras, perd\u00e3o) de comida, arrumadas das maneiras mais caleidosc\u00f3picas pelas ruelas em volta do Castelo de S\u00e3o Jorge: sapatas, am\u00eaijoas, santolas, chamu\u00e7as, carapaus, fiambres, chouri\u00e7os, ginjinhas. De vez em quando, eu entro num desses estabelecimentos, s\u00f3 para ver a exposi\u00e7\u00e3o das comilan\u00e7as. Eles v\u00eam ver o que eu quero e, quando explico que estou ali somente para uma esp\u00e9cie de fruir est\u00e9tico, eles at\u00e9 me oferecem, de vez em quando, uma excurs\u00e3o tur\u00edstica pela despensa e pela cozinha. Marco mentalmente o meu almo\u00e7o: vou ao restaurante de Mimi, no Parque Meyer, comer na varanda, entre as plantas e alguns velhos atores de teatro de revista, conversando com os gatos e tomando o vinho da casa.<\/em><\/p>\n<p align=\"justify\"><em>Mas isto s\u00f3 depois, porque me emociona estar aqui de volta ao Rossio, na boca da Baixa e do Chiado, esperando o sinal abrir e os \u00f4nibus de dois andares pararem de querer me atropelar. Gente que n\u00e3o acaba mais e meus amigos da porta do Caf\u00e9 Nicola e do Pic-Nic \u2014 os angolanos, mo\u00e7ambicanos cabo-verdeanos e guineenses, todos vestidos de Bob Marley e todos muito loucos, transando haxixe. O com\u00e9rcio n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o discreto como se esperaria, dada a sua natureza, digamos, delicada. Brazuca, um angolano assim chamado porque morou muito tempo no Brasil (de onde foi, lamentavelmente, expulso devido \u201ca um problemazito de uma maconhazita\u201d, me cumprimenta amavelmente. Os neg\u00f3cios devem ir bem, ele est\u00e1 de blus\u00e3o novo e passado, barba feita e transas com fitinhas impec\u00e1veis. \u201cN\u00e3o quer l\u00e1 um chuculate, homem?\u201d, me pergunta ele, sacudindo na minha cara um peda\u00e7o de haxixe deste tamanho. \u201cQue \u00e9 isso, Brazuca?\u201d, digo eu. \u201cOlhe os homens a\u00ed\u201d.Aproveita \u2014 responde ele como se n\u00e3o me tivesse ouvido \u2014 que \u00e9 coisa fin\u00edssima que chegou hoje do Marrocos. \u201cDepois, Brazuca, depois\u201d, respondo eu levemente embara\u00e7ado, inclusive porque, junto a mim, um senhor que me parece hindu, muito s\u00e9rio e de palet\u00f3 e gravata, reclama com outro transeiro do tamanho do peda\u00e7o de \u201cchuculate\u201d que acaba de lhe ser vendido por mil escudos. \u201cMas um conto, isto, um conto!\u201d, diz o senhor hindu, obviamente achando tudo um absurdo e exibindo aos passantes a prova de sua alega\u00e7\u00e3o, diante do sorriso desdentado do seu transeiro. \u201cUm conto, isto!\u201d, repete o senhor hindu, mostrando a mim o pedacinho do chuculate. De fato, achei pequeno, mas n\u00e3o considerei apropriado continuar a envolver-me no processo em andamento, de forma que me fiz de desentendido e prossegui na dire\u00e7\u00e3o da rua do Carmo. Lembrei que tinha compromissos inadi\u00e1veis: curtir as livrarias, comprar cigarros na tabacaria de um feroz comunista amigo meu, tomar uma cerveja n\u2019A Brasileira e dedicar algum tempo a apenas me sentir maravilhosamente bem ali mesmo naquele formigueiro da Baixa. Lembrei Dorival Caymmi, uma vez explicando, antes de a Bahia haver sido destru\u00edda como Lisboa, felizmente, n\u00e3o foi \u2014 e como n\u00e3o foi, em tantos sentidos! \u2014, umas certas cores uns certos ares que era imperativo ficar curtindo, em vez de trabalhar. N\u00e3o h\u00e1 tempo para trabalhar, dizia ele, a pessoa fica muito ocupada vivendo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Pois ent\u00e3o, pois c\u00e1 tenho vivido muito em Portugal. N\u00e3o propriamente vendo coisas, embora haja, \u00e9 claro, coisas para ver, mas sentindo. N\u00e3o propriamente aprendendo, mas me acrescentando de tantas formas sutis e fortes, por tantas vias antes insuspeitadas. E ent\u00e3o, sobra\u00e7ando minhas ervas, meus livros, meus postais velhos, meu cortador de vidro, des\u00e7o de novo ao Rossio. Vou caminhar pela avenida da Liberdade, em ponderado passeio para o Parque Meyer. O dia fica cada vez mais luminoso, s\u00f3 consigo pensar em coisas boas. A velha esta\u00e7\u00e3o dos comboios parece uma catedral, a avenida se abre como se fosse haver uma parada, eu adoro Lisboa. E, se voc\u00ea n\u00e3o aproveitar a primeira chance que tiver para vir curtir esta minha cidade, voc\u00ea \u00e9 bobo.<\/em><\/p>\n<div class=\"note info  no-icon\"><div class=\"note-inner\">\u00a0<span style=\"color: #222222;\"><strong>Jo\u00e3o Ubaldo Os\u00f3rio Pimentel Ribeiro<\/strong> \u00e9 um escritor, jornalista, argumentista\u00a0e professor brasileiro, formado em Direito e membro da Academia Brasileira de Letras. Foi o vencedor\u00a0do Pr\u00e9mio Cam\u00f5es de 2008, o maior galard\u00e3o existente\u00a0para autores de l\u00edngua portuguesa. <a href=\"https:\/\/www.google.pt\/url?sa=t&amp;rct=j&amp;q=&amp;esrc=s&amp;source=web&amp;cd=21&amp;cad=rja&amp;uact=8&amp;ved=0CKUBEJoTKAAwFA&amp;url=http%3A%2F%2Fpt.wikipedia.org%2Fwiki%2FJo%25C3%25A3o_Ubaldo_Ribeiro&amp;ei=5WHJU_HeFbCV0QWL2YCgAQ&amp;usg=AFQjCNFv-PKbIcOCZPUEVjy3KNxjr5Mu4A&amp;sig2=nFnFKkCu4UTG-zii-3ze_w\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">wikip\u00e9dia<\/a><\/span>\n\nACTUALIZA\u00c7\u00c3O: O Jo\u00e3o Ubaldo morreu hoje, 18 de Julho de 2014, no Rio de Janeiro, com 73 anos.<\/div><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"clear\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ent\u00e3o o Jo\u00e3o Ubaldo l\u00e1 ganhou o Pr\u00e9mio Cam\u00f5es e facturou \u20ac 100 000,00?<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1329,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"spay_email":"","footnotes":"","jetpack_publicize_message":""},"categories":[5,53],"tags":[203,205,204,202],"class_list":["post-1316","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaques","category-literatura","tag-brasil","tag-escritores","tag-itaparica","tag-joao-ubaldo-ribeiro"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/ubaldo.jpg","jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p4vyzh-le","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1316","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1316"}],"version-history":[{"count":38,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1316\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2418,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1316\/revisions\/2418"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1329"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1316"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1316"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aloisio66.com\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1316"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}