No Man’s Land a.k.a. Kandahar

 

Quando, em 1979, a Mauritânia, acossada pela Frente Polisário, que chegou a bombardear Nouakchott, abandonou a parte sul do Sahara Ocidental, Marrocos rapidamente avançou e ocupou o lugar deixado vago pelo exército mauritano.

Fortemente apoiada pela Argélia, arqui rival dos marroquinos, a Frente Polisário, a partir do Leste, continuou, no entanto, a fustigar com ações de guerrilha os interesses de Marrocos no território. Com o intuíto de terminar com as incursões de guerrilheiros sarauis, Marrocos construiu um muro de areia, ao longo das fronteira leste e sul do território, separando as zonas controladas pela Frente Polisário das zonas controladas por Marrocos e criando entre elas uma zona tampão. Ao longo desse muro de 2 700km de extensão,  ambos os lados beligerantes colocaram perto de 7 000 000 de minas pessoais.

A longo da fronteira sul com a Mauritânia, essa zona tampão, tem uma largura que varia entre 3 e 5 km. Essa estreita porção de território é alegadamente controlada pela Frente Polisário, mas na realidade é uma  terra de ninguém, sem lei nem autoridade, aproveitada para toda a sorte de tráficos, negócios obscuros e refúgio de toda a sorte de bandidagem.

Quem, nesta zona, queira passar de Marrocos para a Mauritânia, tem necessariamente que atravessar esta No Man’s Land, (também conhecida como Kandahar, no lado mauritano) entre o posto fronteiriço de Bir Ganduz, em Marrocos, e o PK55 da Mauritânia, rezando para que consiga encontrar de entre os múltiplos trilhos que lá existem, o certo que leve ao posto mauritano.

Não sei se com algum exagero, em caso de avaria do carro na No Man’s Land, é vulgar ouvir-se o conselho de abandonar tudo e fugir rapidamente a pé, preferencialmente para o lado marroquino.

Quando, cumpridas as formalidades nos preparávamos para sair do portão marroquino, perante a grande quantidade de pessoas que nos esperavam do outro lado aos gritos, perguntei ao sentinela se eram autoridades mauritanas. A resposta foi negativa: São ladrões, respondeu e desejou-nos boa sorte enquanto fechava o portão atrás de nós.

Acelera,  Mário!

Aloisio Nogueira

Génio em part.time. Nasceu em 1966 e está moderadamente contente com isso, embora os seus rendimentos sejam ridiculamente baixos. Part-time genius. Born in 1966 and mildly happy about that. Ridiculously small income, though.

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