A cooperativa

tapetesDesde que, não sei quando, vi pela primeira vez a cena da enxada no documentário “Torre Bela”, a palavra “cooperativa” desencadeia em mim um reflexo condicionado, muito pavloviano, de imediato interesse e curiosidade.

Não foi, por isso, excepção quando, ao subirmos molemente uma escada, numa rua apertada de Xexuão, fomos cortesmente abordados por um cavalheiro careca que, com muito bons modos nos inquiriu sobre a eventualidade de nos virmos a interessar por visitar la cooperative. “Cooperativa? Que cooperativa” salivei eu de orelha afitada, qual cão do Pavlov.

Que era uma cooperativa de artesãos, muito empenhados no desenvolvimento local, foi a resposta na ponta da língua do meu interlocutor. Raios me partam se esta não é uma oportunidade de ouro para mergulhar na realidade e cultura indígena, concluí eu, muito carregado de preconceito ideológico desenterrado da arqueologia do PREC. E lá fomos a abanar a cauda, muito ordeiramente enfileirados atrás do simpático senhor, que não sabia mais o que nos fazer em termos de salamaleques e ademanes.

E assim adentramos “la cooperative”, a qual consistia, na verdade, de um arruinado tear arrumado a um canto, com ar que ninguém lhe tocava, pelo menos, desde a tomada de Ceuta, sendo que no mais era uma acanhada arrecadação de rimas e mais rimas de mantas e tapetes de toda a sorte de cores e feitios.

Mal pus o pé naquela “cooperativa” xexuanense, percebi de imediato que viera enganado, como boi veio para o matadouro e que o únicos cooperantes ali íamos ser nós, para grande remédio do aviamento comercial daquela  loja de tapetes.

Então, quando o homenzinho me começa a falar do calcanhar de Madjer em Viena, fiquei desenganado sobre a chacina comercial que iria ocorrer naquela arena. Quando a qualidade do matador chega a requintes de golos de calcanhar, o melhor que há a fazer é encurtar o mais possível o sofrimento, oferecer o cangote à espada e esperar que ela acerte à primeira no coração, para que a agonia e a sangueira não se prolongue desnecessariamente.

Assim mentalizados, lá bebemos o chá de menta da ordem, rejeitamos 3 ou 4 exemplares de fina tapeçaria “manufacturados” na cooperativa e, muito amadores,  marralhamos pouco convictos os preços  astronómicos, de sorte que rapidamente nos tornamos os felizes proprietários, cada um de nós, de  uma fofa manta, que diga-se, em abono da verdade, muito me tem servido de agasalho e aconchego nestas primeiras friagens outonais, de tal modo que não me saiu muito desajustada, afinal, a relação custo/benefício da dita manta. A sua amortização, conceito por demais importante na ciência económica, que não se explica aqui por manifesta falta de espaço, tem corrido bem.  Mas pode correr ainda melhor se, daqui até ao fim do corrente ano, Portugal for varrido por sucessivas vagas de frio polar e abundantes quedas de neve a cotas baixas, o que fará muita justiça à minha aquisição ou, pelo menos, a fará parecer menos idiota aos meus olhos.

Lá saímos da cooperativa, cada um com a sua manta às costas, desembolsados de um dinheirão e ala que se faz tarde, adeus Xexuão que cá nos vamos direitinhos a Fez, onde, sem o sabermos, já está  alguém à nossa espera.

Aloisio Nogueira

Génio em part-time. Nasceu em 1966 e está moderadamente contente com isso, embora os seus rendimentos sejam ridiculamente baixos. Part-time genius. Born in 1966, is mildly happy about that. Ridiculously small income, though.

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.