Chefchaouen, que bem fica equipada de azul e branco!

IMG_7723_1920Adeus Tânger, que agora não podemos ficar. Haveremos de estar de volta, se tudo correr de feição, daqui por uma semana e aí veremos. Por ora temos pressa e já estamos por demais atrasados, por via da modorra da aduana, que ainda nos vamos aqui a rir os 3 – a Peugeot também – à custa das peripécias alfandegárias.

Atrasados estamos, não que sejamos esperados em Chefchaouen, que lá não conhecemos ninguém nem temos negócio aprazado por aqueles azimutes. Era apenas um gosto que eu tinha de ver a cidade azul, no sopé das montanhas do Rif, muito cantada por quem lá passa, por via das ruelas antigas da sua medina, apertadas entre um casario que parece sempre acabado de pintar de fresco, numa feliz combinação cromática de azul anil com branco, que côa e reflete a luz de modo peculiar.

Essa particularidade urbanística associada ao permanente corrupio de gentes e mercadorias, que transita a penates por aquelas artérias – enfim, da vida que por lá se faz – resulta uma ambiência geral muito propícia à arte fotográfica, particularmente daqueles que a não têm. Qualquer asno com uma câmara na mão, deixado à solta por aquelas partes, tem uma probabilidade estatística muito elevada de, por mera sorte, sacar um retrato que cause a secreta admiração invejosa (a inveja secreta é a melhor) dos amigos, particularmente nos facebooks desta vida, tão abundante em expressões de idiotia de diversa índole, sendo “fantabulástico”, de todas, a minha favorita.

Era, por isso, impossível vir a Marrocos e desperdiçar Chefchaouen, para efeitos de fácil acrescento de respeitabilidade artística.  Aliás, pode-se dizer com toda a frontalidade que foi a incontornabilidade desta cidade que exigiu que corrêssemos um caminho algo desviado do nosso desértico objectivo primário e fixou o final da nossa primeira jornada africana na cidade imperial de Fez, como, a diante, disso darei conta.DSC_2069 square

Por falar em asnos, em Tânger não tivemos dificuldade de encontrar a estrada para Tetuão, cidade que não chegamos a visitar, porque não lhe conhecia apelo especial e também porque manda o mapa das estradas que mesmo antes de lá chegar se desande à mão direita, para sul, se o destino for a cidade azul e branca.

A estrada é a Nacional 2, que se faz sem aperto ou novidade de monta. O trânsito, por ora, é de furgões Mercedes, carregados que nem abelhas, que apesar da idade avançada suprem com garbo e a preceito as necessidades de transporte de tudo que seja preciso transportar por estas bandas, necessidades que pelos exemplos observados são muitas e o povo marroquino é muito dotado de habilidade acima da média para a logística e arrumação de cargas em veículos automóveis, derivada certamente de um conhecimento ancestral de leis secretas da física, permanentemente desafiadas em equilíbrios de massas em movimento, omissas à Lei Universal da Gravidade e da Atracção dos Corpos, que Newton haveria de ficar com os cabelos em pé se por cá andasse.

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As muitas gentes que cá se vêem da estrada, lá andam muito exemplarmente metidas na sua vida, geralmente acompanhadas de um ou mais burros, animal que, havemos de concluir, é omnipresente em Marrocos e um pilar da sua economia.

Tenho para mim que, na eventualidade de uma epidemia dizimadora de gado asinino por estas bandas, o diabo seja surdo, perder-se-á a independência destes reinos, por geral imobilização de pessoas e mercadoria miúda, previsão pouco arriscada sabendo o quanto é vital para a autonomia das sociedades que as miudezas circulem. Deparamos tantas vezes com todas as combinações possíveis do trinómio “velho, rapaz e burro” que muito desconfio que  a edificante história do livro de leitura da 3ª classe só pode ter sido importação marroquina.

Ia eu nestas importantes reflexões de ciência económica sobre a riqueza das nações quando surge, finalmente à esquerda, a estrada que nos há-de levar encosta a cima ao encontro de Xexuão, cuja mancha azul e branca já se divisa a uma légua daqui, pendurada nos contrafortes da montanha,  como que enquadrada por dois picos formidáveis do Rif, de onde dizem lhe virá o nome, que na língua da Berbéria significa qualquer coisa como os chifres a que os ditos picos se assemelham, mas eu isso já não juro que seja certo.

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Não se julgue que o aportuguesamento do topónimo do nosso destino próximo é uma descabida liberdade criativa deste vosso criado. Não é. Sucede que quem se meta em andanças por estas partes meridionais, é certo e sabido que tropeçará amiúde com ligações históricas inusitadas ao nosso rincão pátrio, que sendo o que é, não deixa de ser nosso e dele, pela nossa natureza melancólica,  por isto ou por aquilo, nos surge a emocionada lembrança, sempre que do berço andamos apartados mais do que um par de dias.

Na verdade,  Xexuão é uma velha conhecida da história lusitana. Não por boas razões, diga-se, pois o seu nome está registado nos nossos anais associado a sucessos aziagos, dos tempos em que por cá andamos na nobre e santa missão de espalhar a fé e o império, a par de outras tarefas menores ligadas ao acrescentamento da riqueza dos Infantes.

Por essas eras, em que o país nos era curto para tamanhas ambições, valendo-se da sua sobredita geografia peculiar, que fazia dela fortaleza inviolável, Xexuão foi capital da resistência à ocupação portuguesa do magrebe, ponto de partida e de refúgio de frequentes surtidas guerrilheiras que assolavam as nossas possessões de Arzila e Tânger.

Não poucas vezes viemos nós a Xexuão de barrete na mão e bolsas carregadas de ouro pagar resgates por fidalgotes palermas que se deixavam apanhar pela moirama, com as calças na mão.

Por isso, doravante ficas Xexuão, oh Chefchaouen, que isso não te deslustra o brasão.DSC_2046 1920

Rapidamente nos pomos às portas da cidade, mas antes de entrar, paremos e forremos os estômagos, que já roncam, com pão marroquino e conservas manhosas, que previdentemente compramos à saída de Tânger, que isto não é país de fiambres.

Não sei o que nos parecia piquenicar  no meio da cidade, que até é santa. Por isso comemos do lado de fora.

A cidade em que acabamos de entrar é santa, já se disse,  por dar túmulo a um santo dos maiorais da fé islâmica, Moulay Abdeslam, cuja respectiva massa de devotos considera, se calhar com uma ponta de exagero, um dos “4 pilares do Islão”. Exagero compreensível quando são fortes as devoções e a santidade. Miremo-nos no nosso próprio exemplo: quantas cabeças já não foram abertas a varapau, no Minho, por divergências entre claques dos santos padroeiros? As coisas são como são. Aceitemos a sua natureza, como condição de concerto universal das coisas e felicidade dos simples.

Ademais de ser cidade santa, Xexuão acumula tal honra com a de ser igualmente a capital mundial da produção de haxixe, combinação difícil de bater no que toca à metafísica e deve elevar as experiências místicas vivenciadas na localidade a patamares difíceis de alcançar em qualquer outra parte do mundo, tirando talvez o Monte de Santo António, em Silva Escura, tal o cheiro a alecrim queimado que, uma vez por entre outra, de lá vem em dia de vento favorável.DSC_2032 square

Mal entramos na cidade, em dia de mercado semanal, passamos a ser discretamente seguidos à distância por comerciantes locais, que pacientemente aguardaram que parqueássemos a viatura para, em razoável português, nos proporem a venda da melhor ganza das redondezas, contrato cuja outorga declinamos com simpatia, mas que o nosso interlocutor tomou como desconfiança acerca da qualidade do seu produto e, ofendido, fez a franqueza comercial de oferecer uma pequena quantidade para teste.

Como recusamos, uma vez mais com simpatia, ele, ainda assim não ficou convencido. Era impossível que tipos com o nosso aspecto respeitável não tivessem vindo ali para comprar ganza. Passou a vigiar os nossos passos, sempre discretamente, não fosse o nosso desinteresse ser um mero truque comercial para baixar o preço da mercadoria.IMG_7718_1920

Justiça seja feita à medina de Xexuão, que de facto tem um encanto todo particular, muito azul e branca, ruas e casas que pouco têm a ver com estas áfricas e não enganam nem escondem, antes revelam e confirmam, as vicissitudes históricas do seu povoamento.

Xexuão, apesar de santa para o islão e até por causa disso, in illo tempore,  tivesse andado vedada à presença de outros credos, sempre foi refúgio muito ao gosto de mouros e judeus peninsulares (que lhe trouxeram o azul) quando a desdita lhes bateu à porta, na Ibéria dos nossos muito católicos e intolerantes reis, lá para os anos dos séculos 15 e 16, amém.

Anda-se regalado e distraído por aquelas ruas, como se ali fôra o Alentejo ou a Andaluzia, que a diferença aos olhos vai de pouca a nenhuma e o ritmo é o mesmo e tudo está muito à feição para o olho até do fotógrafo mais minguado de talento, que com alguma liberdade de linguagem, quase se pode dizer que os retratos se tiram sozinhos em Xexuão.

Estavamos neste pasmar, quando surge o homem da cooperativa.

© fotos, também, de Mário Araújo

Aloisio Nogueira

Génio em part-time. Nasceu em 1966 e está moderadamente contente com isso, embora os seus rendimentos sejam ridiculamente baixos. Part-time genius. Born in 1966, is mildly happy about that. Ridiculously small income, though.

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