Crónicas da aldeia IV


Na noite anterior ninguém fazia a mais pequena ideia do que era lá isso do Califado, que pela cara do Teles devia ser a chispa que iria espoletar o armagedão.

O Vitorino Alemão, palpiteiro que era, arriscou uma ligação ao virus Ébola, que fora a novidade trazida da rede na semana passada.

As novas do surto da febre, pela crueza do tipo de morte que provoca, causaram-lhe impressão tão vincada, que o Vitorino anda há uma semana a apertar as tripas, sem ir à casinha, não vá tocar-lhe a ele a desdita de morrer de soltura, que não é boa maneira de morrer para homem nenhum que se preze. Com o perdão do plebeísmo, o alemão andava acagaçado e não era com o não pagamento da dívida soberana portuguesa.

Que não. Que o califado não tinha nada a ver com o Ébola. – É pior, ilustrou o Teles. Que antes era uma jura de uns barbudos, lá da beira da terra de Nosso Senhor, os quais ditos barbudos andam bastante arreliados com a vida que por lá levam, que aquilo é uma terra que é só calhaus e não se arranja nem uma hortazinha para semear uma abóbora, e que, por isso, não descansam enquanto não vierem por aí acima, com uma comitiva a sério, a despejar bombas em tudo o que mexa, até se assenhorarem de novo de Portugal e Espanha, com o propósito de unir isto tudo a Marrocos, que já está meio apalavrado.

“Ó Teles, vai-te lá lixar, que isso é mais uma galga igual às que tu tens trazido das outras vezes. Ele já foi o Fernando Tordo que emigrou para o Brasil; já foi o BES que estava falido; outro dia, que a Lua ia cair; só o Bonga, coitado, já morreu na tua boca uma dúzia de vezes! Ora explica lá porque carga de água é que os judeus da Nazaré haveriam de encasquetar para as nossas bandas, se isto por aqui não interessa nem ao menino Jesus?”

O pastor, paciente como só os sábios sabem ser, lá explicou que não são judeus, são mouros. Mais juntou ao esclarecimento que, há 200 ou 300 anos, nos tempos do pai Afonso, isto por aqui era tudo deles. Toda a gente sabe que para baixo do rio Douro, tudo que é castelo, penedia, amendoal e laranjal era dos mouros. E não vás mais longe, Tona, que ainda hoje lá passei com as cabras, na bica da Moura, que está aí para prova.

-Devem estar com saudades da bica da Moura, contribuiu o Berto Sapo, que, portista desde que vira o Joaquim Leão ganhar a Volta, embalou e, ainda por conta da Supertaça, não resistiu a começar a faena habitual à volta da bola, com uma bandarilha das compridas: – Que na volta, isto do califado e barbudos com azia era derivado aos mouros não estarem contentes com a política de contratações do Benfica.

A partir de aí a conversa rumou a outros azimutes e a eminência do califado foi arquivado na pasta das irrelevâncias, onde já estava o Bonga, o BES, o Fernando Tordo e a Lua aos trambolhões.

De tal maneira que, regressado a casa, o Gaspar Faneco, que além de dono do feroz Tarzan era surdo como um sobreiro, no habitual relato circunstanciado que fazia à mulher das conversas da venda, o assunto não lhe mereceu mais que uma breve nota de rodapé. A mulher do Faneco ficou a saber, muito “en passant”, que parece que o caminho para a bica da Moura vai ser alcatifado por uns tipos da Nazaré.

Para a aldeia parecia que o califado, assim como aparecera, assim morrera, ao apagar-se a luz da venda.

Porém, a vida dá umas voltas estranhas e retorcidas.

Aloisio Nogueira

Génio em part-time. Nasceu em 1966 e está moderadamente contente com isso, embora os seus rendimentos sejam ridiculamente baixos. Part-time genius. Born in 1966, is mildly happy about that. Ridiculously small income, though.