Crónicas da aldeia III


Feitas as competentes inquirições junto de fontes fidedignas, já estou habilitado para fazer alguma luz sobre a aflição que desceu sobre a aldeia, o que vos reporto, também eu agora, sumamente preocupado.

Por jeitos, o Teles, pastor que não tem outro igual por estas bandas no que toca ao zelo da bicharada, ontem à noite, depois de guardar e pensar o gado, lá foi à venda da Tona, como faz todos os dias (menos às quartas-feiras, por razões que não vêm aqui ao caso), para a cerveja que prepara a barriga para a bucha que há-de cear e, especiosamente, para se pôr a par das falas do dia na aldeia e pôr ele a aldeia a par das coisas que vão pelo mundo. Das coisas que verdadeiramente interessam, frise-se, sabe a aldeia pela boca do Teles.

Na aldeia, o mundo que fica a mais de 10 léguas chega coado pelos canais da TDT, que o Teles, justamente, considera uma boa bosta desde o dia em que a internet o fez cidadão de aquém e de além-mar, como dizia a cantiga.

O dia do fiat lux do Teles começou na festa de São Bartolomeu do ano passado. Quis a fortuna que lhe calhasse precisamente a ele, Deus seja louvado, a bênção de ganhar o prémio mais cobiçado da tômbola: um Ifone.

Em São Bernardino, onde foi levantar o prémio, o Teles anunciou à moça da loja ao que vinha e depois ouviu, sem largar um pio, as sumárias mas competentes e treinadas explicações acerca do funcionamento do aparelho, de que o pastor, sendo dos finos, rapidamente ficou inteirado.

Tinha já saído da loja com o animal no bolso, mas voltou para trás para pedir à, gordita mas gira, empregada da Modercom de Ferreira & Filhos, Lda., oh menina, ponha-me aqui um Facebook que eu gostava de falar com a Cristina Ferreira. E ela pôs.

De maneiras que, nessa 2ª Feira, há quase um ano, a globalização entrou pela aldeia a dentro, transportada no bolso do tabaco do casaco do Teles.

Os dias do pastoreio são longos e solitários e o Facebook foi fazendo o seu caminho social e cumprindo a sua missão informativa e o Teles dele bebia todos os dias com a sofreguidão do perdido no deserto que chega ao oásis luxuriante, matando no poço abundante a sua sede ancestral de conhecimento.

E depois, no final do dia, guardado e pensado o gado, despejava tudo na venda da Tona, de cerveja na mão e com numerosa e atenta plateia que rapidamente fidelizou, tal o manancial de casos espantosos que trazia no bornal, ou melhor dito, em jargão de Facebook, de partilhas fabulosas, que o Manel Manco, muito asno, a princípio pensava tratar-se de inventários de grandes fortunas.

Sucede que ontem à noite, atrasado contra o que era o costume, entrou na venda de cenho carregado, com ar grave e sério e as costas ainda mais arqueadas do que era normal em si. Depois do primeiro gole, ficou mudo longos minutos, a olhar para o vazio. O povo do costume ali, à espera das novidades e o Teles nada. À pergunta preocupada da Tona, o pastor largou com voz sumida:

– Estamos fodidos, vem aí o Califado.

Aloisio Nogueira

Génio em part-time. Nasceu em 1966 e está moderadamente contente com isso, embora os seus rendimentos sejam ridiculamente baixos. Part-time genius. Born in 1966, is mildly happy about that. Ridiculously small income, though.