Crónicas da aldeia


Estou de regresso à aldeia, depois de alguns anos de ausência, e fiquei desanimado com o que encontrei.

Por vias oficiais (e também, à cautela, por vias travessas), fiz constar que viria por curtos dias e deitei-me à estrada a salivar em antecipação da minha entrada triunfal no Largo 25 de Abril. A parábola do filho pródigo em versão Hollywood, em que eu faria de Diogo Morgado. Pelo caminho tive até a soberba de achar que a coisa meteria desfile da banda.

Redondamente enganado estava. Eu ter chegado causou tanta comoção na aldeia como as decisões do Tribunal Constitucional: zero. Nem o Tarzan, o cão do Gaspar Faneca, que faz ponto de honra ladrar às rodas de cada carro que passa à entrada do povo, se dignou, sequer, a afitar uma orelha que fosse à minha passagem. Foi a irrelevância suprema.

Ainda achei que estivessem a mangar comigo e que de repente iria saltar de surpresa a aldeia em peso, em grandes folguedos pelo meu regresso. Vi que as expectativas que trazia eram de sobremaneira exageradas quando de braços abertos, ameaçando um abraço, me dirigi ao Vitorino Alemão e ele incomodado safou-se com um “oh amigo eu não quero comprar colchão nenhum“.

De maneiras que, como já tinha a casa paga uma semana adiantada, para que o prejuízo não seja maior do que o já perdido amor próprio, tenho-me entregue à bebida e dormido muito. Não fosse isso e tinha dado a volta e tinha-me vindo embora.

Ingratos.

Aloisio Nogueira

Génio em part-time. Nasceu em 1966 e está moderadamente contente com isso, embora os seus rendimentos sejam ridiculamente baixos. Part-time genius. Born in 1966, is mildly happy about that. Ridiculously small income, though.