Crónicas do Monte do Pardal – III

O dia de ontem foi muito aziago, cheio de contratempos que me esvaziaram de toda a disposição e profunda serenidade que estas minhas humildes reflexões exigem. Sem falsas modéstias, que eu abomino e não é modalidade que pratique, tenho deixado aqui pequenos subsídios à compreensão da natureza humana e ao sentido da vida que, tenho esperança, um dia, devidamente sistematizados por alguém com menos talento mas com mais paciência e ciência organizativa, hão-de transformar-se num verdadeiro manual de instruções para a vida, que os petizes recitarão de cor e salteado em escolas criadas especialmente para o efeito.

Sucedeu que, acreditando na previsão de forte chuva, tinha reservado o dia de ontem para a visita anual ao túmulo de Catarina Eufémia, em Baleizão. Mas foste? Não. Se queres perder tempo, planeia a tua vida, lá diz um filósofo que agora não me lembra o nome, mas que suspeito seja Fernando Pessoa, que é o autor de tudo quanto é frase catita na internet. Vai que me amanhece um dia de canícula como ainda não se vira por aqui e vão-se me os planos pelo monte abaixo: lá tive que ir para a praia muito contrariado.

Praia do Carvalhal (c)

Aborrece-me de morte aquele areal, imenso e branco (e limpo), do Carvalhal, onde se chega depois de um campo de girassóis e se estaciona o carro quase debaixo do guarda sol – a primeira praia drive-in do mundo; tenho ódio àquele mar de ondas fortes entre o verde esmeralda e o azul cobalto, que enrijece músculos e prega partidas aos biquínis das moças, para geral benefício dos apreciadores. Passar a tarde toda nisto é dose para a paciência de qualquer cristão.

Depois, como se não bastasse, no regresso ia atropelando o João Galamba, que se safou por um triz de levar uma cocada, por achar que a rua é toda dele e que pode atravessá-la assim, à camone. Ainda estou aqui com pele de galinha só de pensar que eu podia ter sido responsável pelo fim das políticas de crescimento advogadas pelo tribuno.

Finalmente, para finalizar, como diria o outro, tive uma altercação com uma garrafa de Ramos D.O.C, branco de 2012, a € 3,69 no Intermarché, que veio acompanhada de uma dúzia de sardinhas. para acabar de me lixar o dia.

Mas, como sempre cresci na adversidade, cá acordei mais forte e positivo do que ontem e, como sempre, a bem dizer todas as provações que o destino me coloca no caminho, só para fazer de mim uma pessoa melhor, sem o conseguir.

Já vai longa a reflexão, pelo que terá que ficar para outra maré a desanda prometida na patrulha a cavalo da GNR. Até porque soube agora que o Bloco quer proibir os piropos e eu ainda tenho muitos para gastar, que um homem não é de ferro.

Como nota de rodapé, diga-se que não tomo banho há 4 dias e o mundo não acabou por isso. Hoje vou experimentar andar sem cuecas.

Monte do Pardal, dia de S. Bartolomeu +6

Aloisio Nogueira

Génio em part-time. Nasceu em 1966 e está moderadamente contente com isso, embora os seus rendimentos sejam ridiculamente baixos. Part-time genius. Born in 1966, is mildly happy about that. Ridiculously small income, though.