Crónicas do Monte do Pardal – II


Cordoama (c)

Não posso deixar de partilhar duas fortes impressões que me ficam do dia de hoje. Uma positiva e outra negativa. Quer num caso, quer noutro, não se vê ninguém a valorizar pedagogicamente o que está bem feito ou tomar medidas para amenizar os efeitos perniciosos das más práticas. Façamo-lo nós, pois alguém tem que o fazer.

É de justiça que destaque primeiramente o que é positivo. Nesta conjuntura deprimida que nos assola os dias e nos traz a auto estima de rojo, as boas práticas devem ser exaltadas como terapia colectiva, na esperança de uma rápida retoma do orgulho e tenacidade que sempre nos caracterizou como povo pária europeu.

É sempre consolador verificar que apesar da depressão e choraminguice atávicas, há sectores da nossa economia local que resistem a cruzar os braços. Perante a desdita, vão à luta, inovam e conquistam novos mercados. É o caso do sector do turismo, da zona onde estancio por estes dias. Pelo que percebi, autoridades e empresários locais resolveram fazer uma forte aposta na atração de turistas vietnamitas. E, tudo indica que a aposta está mais que ganha.

Na verdade, vêem-se por estas bandas grande soma de vietnamitas, os quais, pelo que me foi dado saber, são grandes aficionados da apanha do morango. O jogo e a apanha do morango são tradições profundamente enraizadas na milenar cultura oriental.

Identificado este novo público alvo, a indústria turística local rapidamente construiu grandes complexos de estufas de morangos que acolhem, de sol a sol como gostam, muitos grupos de turistas vietnamitas que se mostram muito satisfeitos com a experiência e prometem repetir a viagem no ano seguinte.

Nos cafés locais, os novos clientes orientais procuram exercitar o seu rudimentar português repetindo para os empregados de mesa, até à inanição, a palavra “bagaço”.

Depois dos campos de golfe para nórdicos, estufas para orientais. Um exemplo de dinamismo empresarial a replicar, pois.

Em boa verdade digo que fiquei tão contente por ser portador de boas notícias que, se bem que tivesse planeado igualmente zurzir um mau exemplo que encontrei, nem o vou fazer para não estragar o quadro. Terá que ficar para amanhã, mas aviso desde já que me preocupam as patrulhas a cavalo da GNR.

Ao invés, vou terminar com mais um elogio: tiro o meu chapéu ao profissionalismo, arrojo técnico e refinado bom gosto do DJ Zé Veneno que, apesar de só poder usar os botões do volume e do balance da aparelhagem do bar, anima até ao limite da insensatez o beautiful people do Sunset Beach Party do Carvalhal. Eu por mim, que estou na guest list, se não tivesse que apanhar a última carreira da Rodoviária, às 17h43, no Brejão, ficava pelo menos até às 19h30. É a loucura.

Parece que amanhã vai chover. Se assim for vou aproveitar para um chill out, que eu não sei se aguento tanta curtição.

Este texto, vai na volta, foi escrito de acordo com as regras do novo acordo ortográfico e eu nem dei fé

Monte do Pardal, Dia de S. Bartolmeu +4

Aloisio Nogueira

Génio em part-time. Nasceu em 1966 e está moderadamente contente com isso, embora os seus rendimentos sejam ridiculamente baixos. Part-time genius. Born in 1966, is mildly happy about that. Ridiculously small income, though.