Crónicas do Monte do Pardal I

Pois que muito a contra gosto, por uns alongados dias lá parei de me rebentar a trabalhar, o que, desgraçadamente, é a única coisa que sei fazer. 
De maneiras que desci ao Monte do Pardal, que suspeito seja uma espécie de Vilamoura para pobres, mas ainda não vi bem porque cheguei de noite e a noite aqui é escura como bréu. Mas pareceu-me ouvir um marulhar de águas, o que é bom sinal. É certo que já vi hoje 3 pessoas muito pasmadas, mas nenhuma delas usava sapatos de vela, por isso, nada é certo.
Não posso revelar a localização exacta do Monte do Pardal, por compreensíveis razões de Estado. No estado em que estou não consigo orientar-me grande coisa.
Mas lembro-me de ter passado nos Carvalhos e de ter visto um outdoor com a cara do Hermínio Loureiro. Não será, por isso, difícil encontrar-me em caso de emergência. Posso adiantar que daqui se vê muito claramente a Via Láctea (o céu, não a dancetaria) o que não é coisa de somenos. A quantidade de estrelas que aqui há denuncia que é um sítio onde morre muita gente, pelo que a expectativa média de vida local não deve ser lá muito elevada.
Ora, sendo certo que o verdadeiro viajante não tem pressa de chegar, lá tomei a ronceira Nacional 1 em direção ao Sul. É a nossa Route 66, com piores tabuletas e mais rotundas.
Quis fazer uma romagem de saudade aos tempos em que o tínhamos um país a sério e as viagens Porto/Lisboa se faziam a 40 à hora, em chaços inenarráveis, atrás de infindáveis combóios de camiões de palha ou cortiça, empilhada até atingir em dimensões cósmicas.
Por acaso acho que o desaparecimento dos camiões carregados de palha das nossas estradas tem uma relação directa com a rarefação de valores éticos e com a dissolução de costumes que gangrena os nossos dias, mas adiante, que isso será objecto de uma crónica de férias no próximo ano, se lá chegar e me lembrar ou se não tiver coisa melhor para fazer.
A Nacional 1 é ao mesmo tempo a espinha dorsal deste país e o seu melhor barómetro para qualquer assunto. Por exemplo, se a N1 é a espinha dorsal de Portugal, não é preciso consultar outros indicadores pois é seguro que o país está cheios de hérnias, vergado como uma carvalheira fustigada pela nortada (potente imagem, ah?) como a realidade confirma, aliás.
Debrucei-me sobre o caso das próximas eleições autárquicas: ao longo dos 750 mil km que fiz hoje na N1 vi todas os outdoors políticos que tinha que ver nas próximas 3 vidas que me restam. Estou em condições, destarte, de saber de ciência certa quem são e o que propõem os nossos candidatos a autarcas:
1- São homens. A primeira mulher, bem jeitosa, por sinal, apareceu já o sol se punha.
2 – São geralmente feios.
3 – As suas propostas podem ser sintetizidas da seguinte forma ” Todos Juntos” a “Sentir a terra” e a “Acreditar” em qualquer coisa que não é especificada

Confesso que tive esperança de ver um cartaz a anunciar o propósito de “Sentir Coina”, mas debalde. O mais aproximado disso que me apareceu foi o do Torres Couto (sim o UGT!!!) candidato a Presidente da Junta de Albergaria (não estou a mangar), localidade que recordo vagamente ser no meio de um pinheiral, depois de uma curva à esquerda.
Por falar em esquerda: a partir de certas latitudes, nas rotundas, têm lugar cativo outdoors que anunciam o imperativo de virar à esquerda, o que, como se sabe da experiência, é a melhor coisa para se fazer numa rotunda.

Tudo pesado, estou em condições de anunciar que o país, pelo barómetro da N1, está preparado para o primeiro candidato que solenemente anuncie “Eu prometo não fazer nada”.
Aquele que der esse passo ganhará o estatuto de visionário e arrisca-se a não fazer mais nada para o resto da vida, e muito bem, honra ao mérito e um grande bem haja.

Monte do Pardal, dia de São Bartolomeu +1

Aloisio Nogueira

Génio em part-time. Nasceu em 1966 e está moderadamente contente com isso, embora os seus rendimentos sejam ridiculamente baixos. Part-time genius. Born in 1966 and mildly happy about that. Ridiculously small income, though.

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