São Bartolomeu, de Vila Flor

Dizem que no dia 24 de Agosto o diabo anda à solta. Por isso se fazem procissões carregando o São Bartolomeu e, cá para Norte, tomam-se banhos de mar que gelam os ossos durante um ano, o que deve ser eficaz repelente, visto ser voz corrente que o mafarrico é mais dado a quenturas algarvias.

Senão veja-se o que a seguir relato e afianço, com a certeza de quem viu:

Vai um cristão muito metido na sua vida, comendo curvas e olhando os montes com vagares de quem não é esperado em lado nenhum e olha, lá está Vila Flor, que tem uma igreja bonita, sim senhor, mas ficará a paragem para outra maré.

Desanda, que Moncorvo é para ali, manda a competente tabuleta e eis senão quando, se constata que o povo vila florense havia saído todo à rua atrás do andor do seu São Bartolomeu, cumprindo a desobriga anual, muito prevenido, não vá o cão, por desleixo da cristandade, embicar para os lados da vila.

Não ia ser eu a fazer a desfeita ao santo e, como também não sou muito dado a manobrar às arrecuas, lá integrei a comitiva ao ralenti, fechando o cortejo sagrado, muito atento às fífias da banda acompanhante, que sendo marcial, devia usar espada, pois não era lá grande espingarda.

Afinal, Vila Flor até nem é nenhuma metrópole e não haveria de demorar muito até que a procissão guinasse para alguma rua que fosse dar ao adro da igreja, deixando desimpedido o meu caminho, que era outro que não o da matriz.

É então que aparece o Diabo, a fumegar pelas ventas, muito quilhado com a massa associativa do santo.

Um Fiat Uno muito impaciente, deita de abrir caminho à bruta por entre o povo devoto. O GNR de prevenção, apitando com autoridade, barra o caminho ao diabólico motorista que, possesso, acelera. Safa-se o soldado por ser dos novos e viçosos, com reflexos de karateca, mas não sem antes levar uma cocada de raspão.

Passa o Uno na chispa por mim, aos esses, fazendo-me uma tal tangente ao carro que, até hoje, nenhuma geometria explicou. Salta o povo aos gritos, safando-se como pode, uns aos tombos por valetas, outros de gatas, mas todos ganhando asas e habilidades de acrobatas chineses, que ninguém era.

Corre, atleta em botas de cavalaria, o GNR atrás do Uno. E com a ajuda do santo, usando forças que nenhum doping explica, fez ao carro animado pelo demónio a mais extraordinária pega de cernelha que jamais se havia visto, extraindo das entranhas do dragão mecânico o possuído condutor que, acto contínuo, passou à situação de pré-linchamento às mãos do povaréu, que, naturalmente, tinha tomado a afronta a peito. Não fora o soldado safá-lo pelos cabelos e teria sido o diabo.

Assisti, na primeira fila ao mais extraordinário braço de ferro entre S. Bartolomeu e o Diabo. Um vestido de GNR e o outro de Fiat Uno. Fazendo jus às suas credenciais, o santo arrasou o diabo, trazendo só um ou outro hematoma e uma dúzia de joelhos esfolados.

Os de Vila Flor não são tolos e sabem bem a que santos vale a pena ajoelhar. E o S. Bartolomeu dá cada desanda no Satanás, que não há outro igual.

Eu estou bem. Estou muito bem, aqui escondido no meio da vinha, em cima de um monte escuro como bréu, a umas gordas léguas de Vila Flor, não vá o diabo ser tendeiro.

Aloisio Nogueira

Génio em part-time. Nasceu em 1966 e está moderadamente contente com isso, embora os seus rendimentos sejam ridiculamente baixos. Part-time genius. Born in 1966, is mildly happy about that. Ridiculously small income, though.