As férias de Sr. Hulot

2007-sampaio-1920


sol inclemente deste domingo maltratou a minha pele, reconhecidamente melhor preparada para banhos de luar do que para aventuras balneares. Gosto, porém, desta peculiar praia de perene nortada, onde a temperatura do mar é muito adequada a ursos polares, como se correntes e marés não soubessem medir latitudes. Os locais insistem em chamar-lhe Moreiró, mas mapas e tabuletas baptizam-na de Sampaio. A ela chega-se por caminhos apertados por extensos milheirais e casas de lavoura anacrónicas, o que só acrescenta ao seu privativo encanto. Um ou outro tasco “acafézado” oferece-se ao banhista sem vislumbres cosmopolitas, que por lá, de qualquer modo, estariam deslocados. É de tempos recuados a veraneação por aquelas bandas, pois que lá está o Castro de Sampaio (uma dúzia de pedras reveladoras), pendurado nas dunas, com vista de condomínio fechado o sobre o oceano. Seriam da Idade do Ferro, mas os sampaienses ancestrais, em matéria paisagística, não eram pecos.
Convite amigo, mas igualmente interesseiro, carregou-me a Sampaio.
– Amigo, porque de facto é.
– Interesseiro porque, gulosos e conhecedores das minha lendária (e secreta) habilidade na arte da grelhação de toda a sorte de peixe e vianda armadilharam a minha estância com um cento de sardinhas (da gordas) e umas brasas manipuladas com  adequado “savoir-faire” .
Incapaz de iludir o destino, dediquei-me com bravura à minha arte, cuidando sardinhas e carvão da mesma forma que o Diabo pastoreia almas no Inferno: com calor e devoção. E, também, como o mafarrico, vestido de uma reduzida tanga. Nesses preparos, vislumbrei, porém, uma subtil intervenção Divina: dava-se o caso de ter um frigorífico, prenhe de cerveja gelada, distante do inferno um mero estender de braço. Não podendo abrigar da soalheira o resto da anatomia, a goela, pelo menos, foi um permanente oásis de frescura.

As sardinhas, com agrado geral e comentários encomiosos, fizeram jus à fama do artista e marcharam que nem figos. A cerveja fez igualmente o seu papel desinibidor e, por meu intermédio, desassossegou os convivas (particularmente os de maior bom gosto no vestir), à força banhos de mangueira, actividade que, estranhamente, recolheu firme apoio e incentivo no seio da miudagem e da única cadela presentes no recinto. No rescaldo destas actividades hídricas, o prejuízo foi claro para uma senhora de Lisboa, circunstancialmente convidada, que regressou a casa com um sorriso amarelo e uma câmara fotográfica estragada por uma mangueirada mais desastrada. Pode ser que a câmara seja das subaquáticas.
Gosto da estética daquela casa de praia, que, por alguma estranha razão, sempre me faz lembrar as “Férias do Sr. Hulot” e me transforma, por um par de horas, em burguês.
A Lua, nunca a tinha visto nascer como hoje, assim tão bonita, redonda e grande, atrás de uma casa antiga, lá longe, no meio de um campo de milho. Fotografá-la, sem preparativos demorados, não é possível. Fotografar uma paisagem com Lua tem os seus macetes e carece de equipagens que não estavam à mão. Pena.
Talvez por causa da Lua de hoje, do cão e do pavão não há notícia. Pode ser que, contrariamente à voz corrente, haja na sua existência de animais alguma percepção do Belo e hoje se limitem a observar o astro, reverentes.
Apesar de ainda feder genericamente a sardinha, no meu braço esquerdo, contrariando as químicas, continua a resistir um pequeno oásis aromático.
Vou dormir para o terraço, que o calor não se aguenta.


Aloisio Nogueira

Génio em part-time. Nasceu em 1966 e está moderadamente contente com isso, embora os seus rendimentos sejam ridiculamente baixos. Part-time genius. Born in 1966, is mildly happy about that. Ridiculously small income, though.